
Torre de Bera disputou com Monsanto título de "Aldeia mais portuguesa"
A povoação de Torre de Bera, na freguesia de Almalaguês, preparou-se para receber no dia 19 de setembro de 1938 o júri que andava em digressão pelo país a escolher a aldeia mais típica de Portugal. Para o concurso da “Aldeia mais portuguesa de Portugal”, a Junta da Província da Beira Litoral viu nas freguesias de Almalaguês, nos arrabaldes de Coimbra, e do Colmeal, no concelho de Góis, as que melhores condições reuniam para representar a região na iniciativa que o Secretariado Nacional de Propaganda lançou, nesse ano, a fim de promover a típica arquitetura rural, a genuinidade das tradições e a pureza da cultura popular.
O Diário de Coimbra acompanhou a visita do júri nacional, liderado por António Ferro, diretor da organização de propaganda do Estado Novo, «ao lindo lugar de Torre de Bera», que fora selecionado para a fase final do concurso.
«A gente desta bela povoação recebeu galhardamente os seus visitantes, contribuindo assim para que a impressão destes fosse magnífica», escreveu o repórter deste jornal na edição do dia seguinte.
Vindo de comboio de Lisboa na véspera, e após ter pernoitado no Hotel Astória em Coimbra, o júri deslocou-se à freguesia de Almalaguês para observar «os costumes, o viver, o trabalhar, a alegria, enfim, tudo o que de característico» tivesse a aldeia de Torre de Bera.
«Os trabalhos de filmagens tiveram começo pelas 11 horas da manhã, orientados pelo sr. dr. Vergílio Correia e sr.ª D. Maria José Lucas, professora local. Filmaram-se temas verdadeiramente típicos, como sejam “Vindima”, “Vindo da Fonte”, “Conversando”, “Saída da Missa” e alguns aspetos da povoação. Eram operadores o sr. Salazar Diniz e Octávio Bobone. Cerca das 16 horas o júri nacional iniciou os seus trabalhos. Guiados pelo sr. dr. Vergílio Correia visitaram a Torre da povoação, preciosidade arquitetónica e histórica. O dr. Vergílio Correia expressa ao sr. António Ferro a necessidade que há de salvar duma ruína muito próxima tal preciosidade que é a Torre de Bera - torre que deu o nome à povoação», relatou.
Seguiu-se a visita a uma das casas da pequena aldeia, tipicamente de dois pisos, com o «andar inferior, das lojas, destinado à lenha, ao vinho, aos animais e ao tear, e o superior à cozinha, à sala e aos quartos». Ali, «assistiu-se a trabalhos nos teares, nas urdideiras, na roca, no sedeiro e no sarilho, acompanhados das cantigas adequadas, curiosas, que exprimem bem o seu sentir em tais tarefas».
Foram apreciados «os vestuários festivos e num pavilhão exibiram-se algumas danças com descantes, acompanhadas a violino, violão e harmónio».
«Depois de ultimados os trabalhos, o sr. dr. Ângelo Ferreira ofereceu aos visitantes um abundante “copo de água” que decorreu muito animado. Findo que foi, a caravana voltou a Coimbra, seguindo depois para o Porto, donde irá visitar a aldeia proposta pelo júri do Douro Litoral», informou o jornal.
Em 11 de outubro de 1938 foi atribuído a Monsanto, histórica povoação do concelho de Idanha-a-Nova, o título de “Aldeia mais portuguesa de Portugal”
Concorriam ao “Galo de Prata” duas aldeias por cada província
O regulamento do concurso da “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”, publicitado em abril de 1938 pelo Secretariado Nacional de Propaganda, dirigido por António Ferro, estipulava que cada província do país poderia candidatar duas aldeias, cujos méritos seriam avaliados na visita que o júri do concurso faria à respetiva localidade.
Foram indicadas pelo Minho as aldeias de Vila Chã e Carrazedo de Bucos; pelo Douro Litoral, Boassas; por Trás-os-Montes e Alto Douro, Alturas do Barroso e Lamas de Olo; pela Beira Litoral, Torre de Bera (na freguesia de Almalaguês, Coimbra) e Colmeal (Góis); pela Beira Alta, Cambra (Vouzela) e Manhouce (São Pedro do Sul); pela Beira Baixa, Paul (Covilhã) e Monsanto (Idanha-a-Nova); pela Estremadura, Aljubarrota e Oleiros; pelo Ribatejo, Azinhaga e Pego; pelo Alto Alentejo, Nossa Senhora da Orada e São Bartolomeu do Outeiro; pelo Baixo Alentejo, Peroguarda e Salvada e, pelo Algarve, Alte e Odeceixe. Das 22 foram selecionadas 12, reduzindo-se depois o grupo a Carrazedo de Bucos, Paul e Monsanto, as três finalistas que mais impressionaram o júri. Entre estas decidiu, a 11 de outubro, atribuir o título à histórica povoação do concelho de Idanha-a-Nova, que tradicionalmente ainda hoje se mantém porque o concurso, que deveria ser bienal, não teve segunda edição. Do “Galo de Prata” – um Galo de Barcelos estilizado, “símbolo da portugalidade”, – pode ver-se uma réplica no cimo da Torre do Relógio (na foto), atestando a vila de Monsanto como a “Aldeia Mais Portuguesa”.

(Pode ler hoje esta e outras histórias e curiosidades na edição impressa do Diário de Coimbra. No nosso site estão também disponíveis mais de três centenas de páginas de memórias dos primeiros anos do jornal)












