Conduzir pelo retrovisor
Retrotopia não é das palavras mais comuns. Ainda assim, talvez seja das que melhor caracterizam os tempos que vivemos — ainda que muitos nunca tenham ouvido falar dela. Devemos a sua formulação contemporânea ao sociólogo polaco Zygmunt Bauman, autor da ideia de sociedade líquida e um dos mais influentes pensadores das últimas décadas. No seu último livro, publicado postumamente em 2017 — Bauman faleceu em janeiro desse ano —, Retrotopia surge como conceito-chave para compreendermos algumas das transformações mais profundas das sociedades contemporâneas.
De forma simples, a retrotopia descreve uma inversão no modo como imaginamos o tempo. Durante grande parte da modernidade, o futuro era visto como o lugar da esperança: o espaço onde projetávamos sociedades mais justas, mais livres, mais desenvolvidas. Bauman mostra como, progressivamente, se foi generalizando um discurso de desconfiança, em que o futuro surge sob o signo da incerteza ou mesmo da ameaça. Diversos fatores contribuíram para este movimento: a precariedade económica, o aumento do custo de vida, a perceção de perda de controlo face a processos globais, a transformação acelerada dos media.
Retrotopia é como conduzir a olhar apenas pelo retrovisor, ignorando a estrada à frente
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