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Terapias de amor em forma de “lambidelas”

Desde outubro, no Pediátrico, e janeiro, no IPO, há “estrelas” especiais a arrancar sorrisos de doentes, familiares e profissionais nos serviços de cuidados paliativos destes hospitais de Coimbra. As cadelas Shanti, Jasmim e Glorinha são “janelas fantásticas” do resto do mundo para quem vive num quarto do hospital, numa cumplicidade mágica e inexplicável

A Inês enche-se de amor quan­do, ao longe, vê chegar a Shanti. O olhar ganha brilho, os lábios esboçam um sorriso e o corpo, mesmo frágil, ajeita-se na cama. Chegou a amiga! É preciso arranjar espaço para os beijinhos, para os mimos e para as lambidelas.
E a Shanti também já sabe o que precisa de fazer. Espera que a dona Sílvia estenda a manta azul e, num movimento urgente de quem está a preparar-se para uns minutos de felicidade, salta para cima da cama da Inês.
Em segundos, assiste-se a uma cumplicidade que tem tanto de emocionante, como de inexplicável. «Estas duas...», comenta Sílvia, perante tanta troca de mimos. Não seria preciso, mas a Inês quebra o silêncio: «A Shanti é aquela “pessoa” que não o diz por palavras, mas, de certa forma, sabe o que eu preciso», diz.
E fica assim explicada a importância desta jovem cadela, uma simpática rafeira com cerca de um ano, que tem feito as delícias no Hospital Pediátrico de Coimbra.
A Shanti e a dona, Sílvia Peça, são membros da Associação Ânimas que, desde outubro, é visita semanal aos Cuidados Paliativos do Pediátrico para garantir «emoções positivas» aos meninos internados, mas também a familiares e profissionais daquele serviço, que se confrontam diariamente com cargas tão difíceis. Porque há energia que só os animais conseguem transmitir…

Sílvia Peça é a dona das três cadelas e, portanto, responsável por muita da ternura que elas transmitem a quem as rodeia

A Inês, uma menina de 17 anos, mais do que habituada a longos internamentos no Pediátrico, consegue verbalizá-lo e demonstrá-lo através de festas e troca de mimos. O Bernardo, com 10 anos, e o Lourenço, com 7, que não têm essa capacidade, fazem do sorriso e do movimento corporal a forma de agradecer à Shanti os minutos que lhes dispensa de beijinhos e lambidelas, num diálogo tão cúmplice que é impossível ficar indiferente.
Cândida Cancelhinha, diretora do serviço, chama-lhe «a estrela da companhia». E é compreensível. «Temos crianças e adolescentes com muitos tipos de necessidades, alguns deles com internamentos muito prolongados. Sabermos que naquele dia da semana, naquela hora, podemos ter um momento que os transporta para um mundo que não tem nada a ver com o mundo do hospital, das colheitas, do exames, é algo mágico», confirma, elogiando o poder da Shanti de apaixonar a todos a cada visita, «despertando sorrisos, emoções e reações, mesmo em meninos que não comunicam».
Uma lufada de amor. Um pouco da vida lá fora. Uma paz para onde só os animais nos conseguem transportar. É tudo isto que representa este projeto da Associação Ânimas.
Especialmente focado nos serviços de Cuidados Paliativos, o que justifica «a honra» de ter arrancado, em outubro, no que respeita a cuidados pediátricos, no Hospital Pediátrico de Coimbra, está agora também a levar, semanalmente, «emoções positivas» e «uma mágica energia» canina ao IPO de Coimbra, onde é presença semanal desde janeiro.
E, se a Shanti é a “estrela da companhia” dos mais pequenos, nos Cuidados Paliativos do IPO de Coimbra as estrelas chamam-se Jasmim e Glory (Glorinha como é carinhosamente chamada), que já tomam conta dos corações dos doentes, mas também dos profissionais, que não lhes faltam, portanto, com mimos, festinhas e uma tacinha com água... que o serviço está sempre muito quente.

“Algo mágico que não se consegue explicar”

«A Jasmim e a Glorinha são uma janela fantástica para o resto do mundo para os nossos doentes. Há aqui pessoas internadas há bastante tempo, inclusive com saudades dos seus próprios animais de estimação, embora permitamos que venham cá visitá-los», confirma Rui Silva, diretor do serviço, verdadeiramente satisfeito com o impacto que este projeto já tem junto dos doentes e também nos profissionais. Nâo é difícil comprová-lo. Não há médico, enfermeiro ou auxiliar que não pare para uma festa ou que não esboce um sorriso à passagem das duas cadelas, acompanhadas de Silvia Peça e de Sónia Gonçalves, outro elemento da associação. No fundo, todos sabem a importante missão que as duas “estrelas” do colete verde estão a cumprir num serviço como aquele.
Entre os doentes, a reação é mais do que emotiva... A D. Fátima, rodeada da família que não se cansa de lhe levar afeto, não resiste aos miminhos da Jasmim, que a fazem lembrar os seus Zeca e Maria, que deixou em casa. A D. Ana Paula ganha uma energia extra, pede para lhe levantarem a cama e deixa-se encantar com a Glorinha, a “rainha” dos beijinhos. «É muito querida e muito linda», diz, com um sorriso nos olhos enternecedor, enquanto lhe pede a patinha... e a Glorinha dá, acompanhada de muitas lambidelas.
A D. Fernanda, mesmo mais tímida, não dispensa uma festinha à Jasmim e o Sr. Pierre, um francês que adora presunto (cujo cheiro não é indiferente às duas cadelas), entrega-nos um sorriso quando vê a Glorinha a saltar para a cadeira para o cumprimentar. Momentos únicos...
É como diz Conceição Cruz, enfermeira gestora responsável pelos Cuidados Paliativos do IPO de Coimbra. «Apesar de tudo quanto lhes podemos proporcionar, o toque e o beijinho de cães tão amorosos desperta nos doentes algo mágico, que não se consegue explicar», diz. «Há ali uma interação bonita, o doente desperta para aquele momento, e isso é muito gratificante de ver», remata.

Cães que se transformam para cumprir uma missão

Basta estar uns segundos junto da Shanti, da Jasmim e da Glorinha para perceber por que razão é que a Sílvia Peça as escolheu para estes dois projetos tão especiais. Claro que, assim que foram adotadas, as três cadelas foram ensinadas a socializar, a não responder a estímulos... mas muito do que levam até aos dois serviços hospitalares nesta missão tão especial é de instinto animal e da sua própria personalidade.
A Shanti é bem disso exemplo, confirma. «Ela transforma--se quando veste o colete verde [da Associação Ânimas]. A for­ma como caminha no corredor do hospital quando tem o colete é completamente diferente da forma como caminha lá fora. A forma como interage com os meninos neste contexto, é completamente diferente da forma como interage em contexto de jardim de infância», onde a Ânimas também desenvolve projetos com animais, diz Sílvia Peça, não tendo dúvidas de que estes animais «têm uma perceção de que, em contexto hospitalar, os meninos carecem de um cuidado diferente, de mais tranquilidade». E aqui reside, também, a magia deste trabalho.

Dr. Dog: projeto que leva Ânimas ao Pediátrico

DOCTOR DOG é o nome do projeto de Intervenções Assistidas por Animais que leva a Associação Ânimas, semanalmente, ao Pediátrico de Coimbra. O objetivo é «usar a relação privilegiada entre as crianças e os animais (em particular, o cão), no sentido de fomentar o processo de adaptação à doença e ao ambiente hospitalar», sendo, precisamente, um projeto «destinado às crianças hospitalizadas». Cândida Cancelinha, diretora, e Cristina Almeida, enfermeira coordenadora do Serviço de Paliativos Pediátricos elogiam o projeto. «Foi muito bem acolhido desde o início porque sabíamos que ia ser uma forma de dar resposta ao que sentimos todos os dias que é trazer o mundo exterior para a vida dos nossos meninos, independentemente de estarem internados». Pais e familiares das crianças emocionam-se com as reações dos seus meninos ao amor transmitido pelos animais.

Trabalho 100% voluntário

A presença de cães assistentes em unidades hospitalares é apenas uma das vertentes da Associação Ânimas, que surgiu em 2002 na sequência do interesse pelos benefícios relativos à utilização de animais em situações tanto clínicas como de ajuda social. Desde 2004 com estatuto de IPSS/Instituição com Utilidade Pública, a Ânimas é desde 2011 membro definitivo da Assistance Dogs Europe, bem como da Assistance Dogs International, estando acreditada desde 2018 pela Animal Assisted Interventions – International como entidade formadora de Duplas em Intervenções Assistidas por Animais. Com vários projetos de intervenção, em diferentes contextos, a Ânimas faz um trabalho 100% voluntário, dependendo de donativos, associados e ainda de respostas como o IRS Solidário. Pode saber mais em animasportugal.org.

Abril 6, 2026 . 08:20

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