Quando nos estragam a Primavera
Oficialmente, a Primavera está aqui, nos braços das árvores que se vestem.
Por causa dos acertos nos percursos cósmicos, chegou na sexta-feira, ainda com ameaças de chuva – como se não bastassem as águas dos meses recentes –, embora com a promessa de nos colorir a terra de muitas flores.
Na prática, é uma vinda esperada todos os anos, por esta altura, no hemisfério Norte, até que os dias aqueçam mais.
E eu também não escapo a tal vontade de renovação. Enquanto procuro dar algum sentido a esta crónica, folheio o belo livro que a minha amiga Zulmira Bento publicou em Maio de 2021, sob o título «Alcanena da Serra ao Rio».
E repito o prazer da leitura de uma escritora e aguarelista que nos merece um olhar mais atento, principalmente pela sobriedade poética e pela suavidade com que pinta as paisagens naturais e construídas do território da sua infância.
Conhecendo muito bem o seu chão e as suas raízes, Zulmira Bento – que escreveu a sua primeira obra de poesia em 1988, «Janelas de Papoilas» –, oferece--nos, com a sua capacidade de depuração e serenidade, uma monografia em que a marca identitária de uma comunidade se refugia num criativo diálogo interior.
Nascida em Vale Alto, na freguesia de Minde, a autora conta-nos que entre si e o seu espaço natural se estabeleceram profundos vínculos afectivos. Assim, ocorreu-lhe juntar a poesia à pintura num só trabalho, «reflectindo todo o indivisível» da pessoa que é.
Com duas dúzias de aguarelas e uns tantos poemas, tenta seduzir-nos com os encantos do património natural, histórico e cultural do seu concelho.
E, no que me toca, conseguiu, levando-me a redescobrir, a par da Azenha de Filhós e da zona do Vigário, o Parque do Rio dos Cantos: «[…] Como se o universo / Coubesse neste lugar.»
Não precisamos de virar o planeta do avesso, para vermos assombradas as cores primaveris. Muitas vezes, penso na célebre frase de Jean-Paul Sartre, retirada da peça de teatro «Huis Clos» («Entre Quatro Paredes»).
Marcada pelo existencialismo do filósofo e crítico francês, traduz o ónus do olhar alheio, bem como o respectivo julgamento e a prisão da liberdade individual: «O inferno são os outros.»
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