
Relatório sobre as cheias pode alterar a gestão do Mondego
No seguimento do protocolo celebrado em fevereiro entre a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Ordem dos Engenheiros, foram ontem nomeados os membros do grupo de trabalho que vai produzir um relatório sobre as últimas cheias na Bacia Hidrográfica do rio Mondego. O prazo de elaboração é de 100 dias, mas na primeira ou segunda semana de maio (até ao dia 9) haverá um relatório preliminar.
O grupo é constituído por engenheiros da região, uma das condições da APA, defendida também pelos autarcas dos concelhos mais afetados (Coimbra, Montemor-o-Velho e Soure), num modelo que deverá ser replicado no estudo de outras bacias do país.
Constituído por Armando Silva Afonso (coordenador, especialista em Sanitária), Alfeu Sá Marques (Hidráulica e Sanitária), Nuno Cruz Simões (Hidráulica), Paulo da Venda Oliveira (Geotecnia) e Carla Pimentel Rodrigues (Hidráulica), o grupo de trabalho vai, como resumiria o presidente da APA, José Pimenta Machado, avaliar o impacto das últimas cheias, revisitar o projeto do Baixo Mondego, «pensado em 1970 e iniciado na década de 1980», adaptando-o à atual realidade e tornando-o mais resiliente, e apresentar possibilidades de um modelo de gestão.
Também de forma resumida, a OE adianta que, no âmbito do protocolo, os especialistas vão avaliar o impacto das cheias deste ano, «incluindo, entre outros aspetos, a análise comparativa das circunstâncias associadas à rutura do dique do leito central ocorrida em 2026, tendo em consideração os eventos verificados em 2001 e 2009.
"O que aconteceu este ano mudou o modelo de gestão das cheias em Portugal, analisa presidente da APA"
Os trabalhos incluem «reavaliação do projeto das infraestruturas do Baixo Mondego e a sua eventual adaptação às exigências atuais decorrentes das alterações climáticas». Noutra vertente, serão apresentados «contributos para o modelo de governança» do aproveitamento hidráulico do Mondego, «envolvendo a revisão do modelo de manutenção continuada, assegurando meios financeiros para a conservação preventiva através de um modelo de cogestão participada pelos municípios, entidades e agentes económicos da região», antecipa a OE.
«O ano de 2026 mudou o modelo de gestão de cheias em Portugal», diz Pimenta Machado, com o presidente da APA a recuperar dados de um período excecional, de uma nova realidade associada a fenómenos climáticos extremos, que exige reflexão e medidas. Entre 1 de outubro de 2005 e 16 de fevereiro foi batido o recorde de precipitação, que datava de 1966 (1.208 milímetros e agora 1.235), com tempestades sucessivas. Em três semanas era possível encher a Barragem da Aguieira «quatro vezes» e a das Fronhas «sete vezes», observou o responsável, que critica quem afirma que as barragens não são importantes no controlo das cheias.
Os especialistas deverão também analisar a cota de cheia da Aguieira (117), que a APA baixou em fevereiro, como medida preventiva, para 114,7, o que permitiu encaixar mais 30 hectómetros de água.
Para Pimenta Machado, que deixaria palavras de apreço para os autarcas de Coimbra, Montemor e Soure pela colaboração com a APA no período crítico de fevereiro, «é importante revisitar a cota da barragem da Aguieira, olhar para a barragem de Girabolhos, olhar para o sistema de diques, para os sistemas complementares de defesa contra as cheias, no fundo, revisitar todo o projeto».
Questionado pelos jornalistas no final da posse do grupo de trabalho, que decorreu na sede regional de Coimbra da Ordem dos Engenheiros, o presidente da APA garantiu que a construção de Girabolhos é «prioridade» e já houve contactos com os municípios envolvidos. A ministra do Ambiente, recorde-se, garantiu que o concurso para a construção seria lançado até ao final deste mês de março.
Sobre o modelo de gestão, também em análise pelo grupo de trabalho, Pimenta Machado lembrou que o sistema hidráulico do Mondego tem fins múltiplos: produção de energia, rega para a agricultura, indústria e consumo humano. «Temos de olhar para o modelo e refletir como o podemos tornar mais operacional, em que os vários utilizadores também contribuam», acrescentou.
A sessão, em que Alfeu Sá Marques não pôde estar presente, foi acompanhada por Isabel Lança, presidente da Ordem dos Engenheiros – Região Centro.
Bastonário critica falta de plano de atuação para emergências
Na sessão de nomeação e posse do grupo de trabalho, o bastonário da Ordem dos Engenheiros destacou o desafio de elaborar um relatório técnico em 100 dias, salientando que faz parte «do espírito de propostas e soluções com que a organização olha para as infraestruturas e território crítico, de uma forma integrada e abrangente e não circunstancializada».
Fernando de Almeida Santos lamentou que Portugal não tenha ainda definido quais são as infraestruturas críticas e não tenha um plano de ação para cada uma. «Depois também não temos um plano de atuação previsto no Orçamento de Estado, como existe noutros países, para emergências», criticou o bastonário.











