
Doze rapazes morreram em 1938 num trágico simulacro de incêndio na Praça da República
Orgulhosos dos «nove modernos carros de combate aos incêndios, que substituíram as anacrónicas viaturas de tração humana, as escadas “Magirus” puxadas a muares e as bombas manuais, velharias próprias de museus», os Bombeiros Municipais andaram ao final da tarde de 6 de julho de 1938, no segundo dia das Festas da Cidade e da Rainha Santa, a exibi-los num desfile pelas principais ruas de Coimbra.
A completar a “imponente parada dos soldados da paz” programaram-se para essa noite, pelas 21h00, várias demonstrações das capacidades de resposta da corporação municipal, prometendo especial interesse o simulacro de incêndio num prédio em madeira, de três andares, expressamente construído para esse fim na Praça da República, a escassos metros do quartel da Avenida Sá da Bandeira. O espetáculo de «realismo empolgante, com todos os riscos e emoção», com que os organizadores do exercício de salvamento esperavam impressionar a população, correu muito mal e terminou em «arrepiadora e horrível catástrofe» que «cobriu de pesado luto a cidade», pela perda de 12 jovens vidas.
Nos dias seguintes o horror estava estampado nas páginas do Diário de Coimbra. «Pouco depois da hora marcada, numa pilha de lenha, carqueja e óleo colocada no rés-do-chão da casa esqueleto foi derramada uma porção de gasolina a que lançaram o fogo. Dá-se o sinal de alarme. As chamas tornam-se alterosas e ameaçam os figurantes que estavam nos andares superiores do prédio. Veem-se braços saídos das janelas pedindo socorro. Os bombeiros, porém, não têm tempo de prestar qualquer auxílio, porque as chamas envolvem todo o edifício. Prevê-se a tragédia. Toda a multidão grita, angustiada, por socorro. Os figurantes sobem para o andar superior, com exceção de uma criança de 12 anos, que, do segundo andar, se lança no espaço e se estatela no solo. Os bombeiros correm aos carros e tiram duas telas dos saltos. Não chegam, porém, a utilizá-las com eficiência, pois os doze desgraçados que estavam já a ser envolvidos pelo fogo sucessivamente se lançam daquela altura enorme – 17 metros acima do solo –, ficando num montão disforme, preferindo isso a serem pasto das chamas. O último já vinha envolvido em fogo quando se lançou no espaço. Um deles conseguia formar o salto em condições, mas quando caiu dentro da tela, esta estava ainda mal desenrolada. E milhares de pessoas que assistiam ao ato gritavam enlouquecidas, pelo horror da tragédia que a fatalidade lhes fez presenciar. Dezenas e dezenas de senhoras desmaiaram por toda a praça. Foi horrível, simplesmente horrível, e nós não encontramos palavras suficientemente apropriadas para podermos descrever, sequer sucintamente, o horror da catástrofe», relatou, emocionado, o repórter deste jornal.
Dos 13 figurantes colocados dentro da casa esqueleto, «quase todos pertencentes aos serviços auxiliares dos bombeiros e ao serviço de limpeza da cidade, que deveriam ser salvos pelos bombeiros uma vez dado o alarme alguns momentos após o fogo posto», apenas Albino Baptista, de 20 anos, sobreviveu aos ferimentos graves que sofreu ao atirar-se do “prédio” para fugir às chamas.
Na manhã de 8 de julho muitos milhares de pessoas acompanharam os funerais de 11 das vítimas, da Sé Nova para o cemitério da Conchada, realizados a expensas da Câmara Municipal, que assumiu também «as providências necessárias para o amparo das famílias». Nessa mesma manhã viria a morrer nos Hospitais da Universidade mais um desses jovens, Daniel Roxo dos Reis, de 19 anos.
As Festas da Cidade e da Rainha Santa desse ano foram adiadas duas semanas e o governador civil abriu um inquérito, ouvindo o relato de envolvidos, testemunhas e especialistas de combate a fogos.
O relatório que o jornal publicou a 18 de agosto, validado por despacho do ministro do Interior, apontou várias falhas e considerou «moral e tecnicamente responsável» pela tragédia o inspetor de Incêndios, major de engenharia Arménio Gonçalves, comandante dos Bombeiros Municipais de Coimbra, que «planeou o exercício e o mandou executar sob a sua direção».
À porta da expedição do Diário de Coimbra juntou-se, alta noite, uma multidão ansiosa por notícias sobre a tragédia a aguardar a saída do jornal, que depressa esgotou
As malogradas vítimas da tragédia que abalou as Festas da Cidade
Num talhão do cemitério da Conchada estão sepultados os 12 jovens que morreram na tragédia da Praça da República. As vítimas mortais foram Artur Carlos Pedro, de 24 anos, empregado dos Serviços de Higiene da Câmara de Coimbra, dos Palheiros, Torres do Mondego; Luciano Fernandes de Almeida, 23 anos, bombeiro auxiliar, residente no Calhabé; António Martins Barata, 22 anos, bombeiro auxiliar, morador na Rua da Nogueira; Silvino Amaro, 19 anos, empregado dos Serviços de Higiene, do Zorro, Torres do Mondego; Manuel Antunes Trindade, 17 anos, empregado dos Serviços de Higiene, do Golpe, S. Paulo de Frades; Manuel Francisco Várzeas, 23 anos, empregado dos Serviços de Higiene, do Dianteiro, Olivais; José dos Santos Ferraz, 16 anos, aprendiz de pintor, dos Olivais; Carlos de Oliveira, de 18 anos, de Coimbra; José da Silva Brandão, 19 anos, bombeiro auxiliar, de Coimbra; António Larguesa, 19 anos, dos Carvalhos, Ceira; José Abrunhosa, de apenas 12 anos, empregado dos Serviços de Higiene da Câmara, morador no Arco do Ivo, em Coimbra; e Daniel Roxo dos Reis, 19 anos, empregado dos Serviços de Higiene, dos Carvalhos, Ceira (viria a falecer nos HUC na manhã de dia 8). Dos 13, o único sobrevivente foi Albino Baptista, de 20 anos, empregado dos Serviços de Higiene, dos Palheiros, Torres do Mondego, que durante algum tempo esteve internado no hospital a recuperar dos graves ferimentos.
(Pode ler hoje esta e outras histórias e curiosidades na edição impressa do Diário de Coimbra. No nosso site estão também disponíveis mais de três centenas de páginas de memórias dos primeiros anos do jornal)











