
Pedro Correia concluiu o 12.º ano e agora é o “avô” da Faculdade de Economia
Ao fim de 30 anos como emigrante nos Estados Unidos da América, Pedro Correia regressou reformado «à pátria», como diz o próprio. Mas em S. Romão, Seia, onde reside com a esposa, deparou-se com tempo livre a mais. «Onde ocupar o tempo livre?», questionou-se então. «Estamos na zona da Serra da Estrela, onde não há tantas oportunidades. Pensei concluir o 12.º ano, procurei escolas, inscrevi-me no ensino noturno em Seia, mas fui o único aluno, por isso o curso não abriu», recorda o antigo emigrante.
Bateu à porta de Oliveira do Hospital e ali «abriram-se outras oportunidades», conta. Mais até do que aquelas que inicialmente pensou alcançar, porque Pedro Correia não só terminou o 12.º ano no Centro Qualifica do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital, como acabou por ingressar no ensino superior na Universidade de Coimbra. Hoje, conta, com 64 anos é o «avô» da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), onde frequenta o curso de Relações Internacionais.
Ainda a falar do tempo de aluno - que não foi há muito - em Oliveira do Hospital, Pedro Correia recorda como foi bem recebido e acolhido por todos os profissionais da escola. «Foram todos espetaculares», destaca. Recentemente, na cerimónia de entrega dos certificados aos adultos que completaram as suas habilitações, Pedro Correia “deu nas vistas”, ao passar uma mensagem de incentivo a todos que desejem trilhar um caminho, que possa parecer difícil ou desajustado, para acreditarem. Ele acreditou e sentiu que precisava de mais na sua vida.
«Nessa altura que terminei o curso senti que era muito curto para mim», recorda. Foi então que Pedro Correia se pôs ao caminho em direção à Universidade de Coimbra onde fez «as perguntas convenientes» que lhe permitissem saber de que forma podia ingressar no curso de Direito, que sempre foi um sonho.
As candidaturas, contudo, já tinham terminado e a opção que lhe foi sugerida foi Relações Internacionais na FEUC. Seria, pois, por aí que começaria a trilhar um novo caminho. Fez o exame para o ingresso pelos “Maiores de 23”, conseguiu entrar e hoje é estudante da FEUC.
«Os meus amigos perguntavam porquê e para quê e diziam que não andava bom», recorda, contando que, da esposa, recebeu - e recebe - todo o apoio necessário. Aos amigos e todos os outros que duvidam, faz questão de justificar as suas escolhas, dizendo que «o enriquecimento pessoal é muito importante». Pedro Correia sabe e diz que não vai exercer qualquer profissão relacionada com o curso superior, mas tem a certeza que «adquirir conhecimentos é muito importante». Além disso frisa como é igualmente importante «desmistificar o ensino superior e a questão dos doutores que no interior do país continua a ter muito peso social».
«Eu já não entrava numa sala de aula há mais de 50 anos», recorda, entre risos, comentando alguns aspetos do seu dia a dia na FEUC:
«Dizem que sou o avô da sala e tem uma certa razão porque sou o mais velho da faculdade».
Mas, idade à parte, faz questão de frisar como, tal como no Centro Qualifica de Oliveira do Hospital, tem sido bem recebido na FEUC, onde «o ritmo escolar não é fácil», mas onde, com esforço «e muita leitura» tem alcançado resultados.
«Não tenho más notas», comenta o estudante que, ao mesmo tempo, não dispensa a sua horta e o seu pomar, onde se dedica à agricultura biológica.
Os 64 anos de experiência de vida dizem-lhe que é importante saber mais, mas «não têm todos de ir para um curso universitário». «O importante é que ocupem o tempo em coisas produtivas, pode até ser voluntariado».











