
“Preservar e divulgar” a música popular é essencial
Diário de Coimbra “Semear Salsa ao Reguinho” surgiu num momento muito particular da história portuguesa. Olhando para hoje, encontra paralelismos entre esse tempo e a atualidade?
Vitorino Salomé Cada tempo tem as suas inquietações, mas há coisas que regressam sempre. Quando o “Semear Salsa ao Reguinho” apareceu, em 1975, Portugal estava a descobrir-se outra vez, havia uma vontade enorme de liberdade e de dizer coisas que durante muito tempo tinham ficado caladas. As pessoas procuravam identidade, procuravam voz. Hoje não vivemos a mesma realidade, felizmente, mas sinto que existe novamente uma certa inquietação coletiva. Há dúvidas sobre o futuro, sobre o lugar das pessoas no mundo e sobre a própria cultura. Nesses momentos a música volta a ter mais importância, porque ajuda a pensar e também a unir. Talvez a diferença seja que naquela altura tudo parecia começar. Hoje sabemos que a liberdade é algo que precisa de ser cuidada todos os dias. Nesse sentido, sim, encontro paralelismos — porque as canções continuam a lembrar-nos quem somos e de onde vimos.Cinquenta anos depois, este álbum continua a fazer sentido? Ou talvez faça ainda mais sentido agora?
As canções nunca pertencem apenas ao tempo em que são escritas. Quando fiz o disco falava das pessoas, da terra e das dificuldades de um país muito concreto, mas essas realidades reconfiguraram-se, não desapareceram. Hoje este disco já não é apenas o retrato de uma época, é também memória, e a memória ajuda-nos a compreender o presente. Há temas que continuam muito atuais e é bonito ver gente nova a descobrir estas músicas como se fossem de agora. Isso mostra que ainda respiram.Quando decidiu revisitar o disco meio século depois, quais eram as expectativas para esta nova edição?
Não parti muito de expectativas, mas de curiosidade pelo resultado. Cinquenta anos é quase uma vida inteira e quis perceber o que tinha mudado em mim e nas canções. Não quis fazer nostalgia, mas reencontrar a música com outros músicos e outras gerações. Era como voltar a conversar com velhos amigos.
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