
Dariia agradece apoio dos portugueses, Roman não pensa num regresso à Ucrânia e bebé de um ano chora com Kiev destruída
Oleksiy e Natalia Syslov chegaram a Portugal há três anos e meio com as filhas, Dariia e Iryna, hoje com 19 e 5 anos, respetivamente. Para trás, deixaram uma Kiev (capital da Ucrânia) destruída, família e amigos sem certezas de um reencontro. Antes ainda passaram pela Moldávia e depois por Montenegro, até se fixarem por cá.
Para os pais, a língua portuguesa ainda representa alguma dificuldade, mas, sempre que é necessário, as filhas estão lá para ajudar, até porque Portugal também já é onde se voltaram a sentir em casa.
De cartazes em punho, a família Syslov fez questão em participar na marcha cívica “Coimbra com a Ucrânia”, que saiu ontem à rua, a dois dias da data em que passam, exatamente, quatro anos sobre a invasão “em grande escala” da Ucrânia pela Rússia.
“Hoje nós e amanhã vocês” e “A Rússia é um país terrorista - STOP war” são as mensagens que mãe e filha exibiam durante a iniciativa, que saiu da Praça 8 de Maio e terminou no Pavilhão Centro de Portugal.
A frequentar o ensino superior no Porto, Dariia conta que, quando chegaram, foram acolhidos por uma família portuguesa, uma ajuda que fez toda a diferença para quem chegava com a bagagem repleta de incertezas e com muitos dos sonhos desfeitos pela guerra.
«Portugal é muito amigável e as pessoas ajudaram muito», sublinha a jovem.

Roman Nayavko já está em Portugal há 10 anos. Chegou com 15 anos e, hoje, com 25, exibe com orgulho os símbolos do seu país de origem, mas regressar à Ucrânia, definitivamente, já não faz parte dos seus objetivos.
«Tenho cá a minha namorada. Estou a planear a minha vida cá ...voltar para uma incerteza...» é algo que não imagina. Quando terminar a guerra, terá gosto em ir passar férias ao país-natal, onde vivem os avós. Aliás, a avó até está de visita a Portugal e acompanhou Roman à iniciativa no Pavilhão Centro de Portugal.
Roman Nayavko está a terminar o mestrado em Engenharia no Ambiente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Ao longo do curso, fez questão de se envolver nas dinâmicas académicas e até fez parte do núcleo. Também o irmão Ruslan está a concluir o mestrado, mas em Engenharia Civil.
Os dois irmãos viajaram para a Figueira da Foz, quando começou a guerra na Crimeia. Nessa altura, já os pais estavam em Portugal (o pai veio no ano 2000 e a mãe uns anos mais tarde).
«Os meus pais disseram: “nós não vamos acreditar nos russos, é melhor vocês virem para cá”». E assim foi.
Roman recorda os primeiros tempos na Escola Bernardino Machado, na Figueira da Foz. «Fui muito bem acolhido. Os meus professores ajudaram-
-me sempre naquilo que conseguiram, porque não era fácil... quando vi para cá não sabia falar português», salientou.
Hoje em dia, não tem dúvidas: «estou bem integrado, Portugal está a fazer um bom trabalho de acolhimento, depois da invasão».
Natural de Lviv, Roman Nayavko não acredita que a guerra termine em breve. «Os russos não querem. O Trump também não ajuda em nada. Os ataques estão a ser cada vez mais frequentes nas cidades grandes», salientou, preocupado com a situação do país que o “viu” nascer.
Anastacia tem três filhos: um rapaz de 20 anos, um de 12 e uma menina de 2, que já nasceu em Coimbra.
Kiev é a sua cidade e o ano passado esteve lá durante um mês e, apesar da filha ainda ser bem pequenina quando viajaram até ao país-natal da família, não deixou de estranhar a destruição.
A língua portuguesa ainda é uma dificuldade, até porque foi tendo trabalhos em que não necessitava praticar. Residente em Condeixa, fala com carinho nos tempos em que trabalhou numa instituição com seniores. «Eram tão queridos», conta.
Anastácia fala com tristeza das condições em que vivem atualmente os pais em Kiev. «A Ucrânia não tem nada», diz.
A invasão da Ucrânia pela Rússia completa amanhã quatro anos. À distância dos bombardeamentos diários e das ofensivas, estas três famílias e tantas outras que tiveram de fugir da guerra reaprenderam a viver a sonhar com a paz.
As tiaras de flores, o amarelo e azul da bandeira, as camisas bordadas e o hino são símbolos que, orgulhosamente, exibem, enquanto gritam “Slava Ukraini” ("Glória à Ucrânia!), exigem o fim do genocídio e falam da Rússia como um estado terrorista.
Memórias de ida à praia para dois irmãos ucranianos verem o mar
«A nossa tempestade não é um fenómeno natural. É uma decisão humana, que pode e deve ser contrariada», dizia Olga Filipova, um dos principais rostos da comunidade ucraniana em Coimbra, no final da marcha cívica, que reuniu algumas dezenas de ucranianos, mas também muitos portugueses que fizeram questão em se associar à iniciativa que marca quatro anos da invasão russa.
«A nossa tempestade tem um só nome: Rússia», continuou, frisando que «a resiliência não chega» para salvar o seu país da força do ditador Putin.
Depois de um minuto de silêncio pelos milhares de vítimas causados pelo conflito, ninguém ficou indiferente às palavras de Emília Martins, presidente da Orquestra Clássica do Centro, ao recordar o músico Vladiyslav Gorai, que faleceu em junho de 2025, precisamente na guerra, numa ação de voluntariado.
Tenor da Ópera Nacional de Odessa, Vladiyslav Gorai, em setembro de 2022, esteve em Coimbra, com outro solista, a convite da Orquestra Clássica do Centro para participar no Festival das Artes de Conimbriga.
Foi cá que o músico reencontrou os filhos, de 8 e 10 anos, que estavam, desde fevereiro (início da guerra) com a mãe em Inglaterra.
«O tenor Vladyslav Gorai fez sempre voluntariado a quem estava na linha da frente, depois do trabalho na ópera», sublinhou Emília Martins, dando conta do «privilégio enorme» que foi assistir ao reencontro desta família e de ter partilhado com ela momentos que tem certeza que nunca vai esquecer.
«Fui ver o mar com os dois pequenos... é inesquecível», recordou, ao salientar que os meninos lhe tinham dito que em Odessa não se podia entrar no mar, porque estava «tudo minado».
E num vídeo partilhado na tarde ontem no Pavilhão Centro de Portugal, lá estão os dois pequenitos num areal, próximo de Coimbra, a jogar à bola com o pai, à beira mar. Para muitas famílias, será algo que se repete várias vezes, especialmente nos dias de verão, para Vladiyslav Gorai e os dois filhos foi um momento único











