QUANDO FUI CRIANÇA
1 Quando fui criança, com sol, chuva, orvalho ou cacimba, rumava à escola, lesto porque tinha de percorrer alguns quilómetros, onde chegava ofegante e rúbido. No regresso, voejava com asas nos pés, porque ansiava, após repasto frugal, brincar e confraternizar com o meu «gang», integrado por uma quinzena de infantes, num bairro periférico e pobre, mas não problemático. Abundavam as alcunhas, indumentos não raro atassalhados, sapatos gastos ou sandálias, rostos, feitios e traços morfológicos variegados, uns engolados, outros anafados, mas onde reinava uma fraterna jovialidade. Eram raras as brigas com sopapos à mistura, logo apaziguadas. Agenda variada. Ou jogos de rua prosaicos, naturais, sem artifícios (bola, peão, corrida pedestre ou com carrinhos por nós manufacturados), ou incursões na melopeia da natureza dos arredores, sorvendo o aroma inebriante da flor, do arbusto ou da árvore vigorosa e ouvindo a delícia do gorgeio e do trino das aves, pisando sarça, balças e matagais onde se catavam grilos e pássaros, ou delibando frutos selvagens e cachos de videiras racimosas; outras vezes escalando a encosta íngreme e escarpada de um monte vizinho, onde lançávamos estrelas tecidas de papel colorido em armação de canas, ou trepávamos em árvores frondosas, e em seus vigorosos caules e ramos executávamos exercícios de ginástica, ou disputávamos em corrida quem primeiro atingia o cume do monte. Era sempre assim, até à hora do lanche. Depois, os deveres escolares tinham prioridade.
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