
Caule defende gestão integrada com mais pastores e menos eucalipto
O «abandono do mundo rural é cada vez maior» e a floresta, outrora fonte de rendimento, é hoje «foco de problemas para muitos proprietários», ora pelos constantes incêndios que assolam o território, ora pelas pragas e doenças que atacam o património arbóreo. A avaliação, feita por Vasco Campos, traça um cenário que não é animador, mas há esperança para uma floresta que não seja vista como despesa, mas uma fonte de rendimento e um contributo para a riqueza do próprio país. E é nesse sentido que a Caule - Associação Florestal da Beira Serra trabalha diariamente, há 25 anos, procurando uma floresta que seja vista como «bem de produção».
«A roda está inventada, sabemos o que é necessário para a floresta», diz o presidente da Caule, explicando que uma «gestão integrada» que reúna proprietários em torno do mesmo objetivo comum, é fundamental, mas só funcionará «com políticas de acompanhamento e apoio consecutivas». Ora aqui reside logo um problema: mudam-se os políticos, mudam-se as políticas. «Já vimos isto há 25 anos», assinala.
Como associação de produtores florestais, e dando seguimento àquilo que eram as orientações governamentais, a Caule começou por constituir as chamadas ZIF (Zonas de Intervenção florestal) e chegou a ter 12. Por força das “políticas”, as ZIF acabaram por dar lugar às AIGP (Áreas Integradas de Gestão da Paisagem) e, mais uma vez, a Caule perfilou-se na linha da frente na constituição destes modelos de gestão da paisagem, que Vasco Campos admite serem melhores, desde logo porque o apoio é a 20 anos.
Caule conta com cerca de uma centena de colaboradores, que asseguram a gestão da floresta
A associação tem atualmente oito AIGP, que abrangem território dos municípios de Oliveira do Hospital e Seia, num total de mais de um milhar de proprietários. O foco tem estado na transformação da paisagem, diminuindo as espécies de crescimento rápido e as invasoras lenhosas que, progressivamente, têm estado a ser substituídas por espécies autóctones, como sobreiros e medronheiros. «Estamos a plantar 50 mil sobreiros nas zonas do vale do Alvôco e na próxima época vamos tentar plantações superiores», exemplifica o responsável.
Numa outra frente de trabalho, é a pastorícia que ganha forma, transformando áreas agrícolas em pastorícia para, por exemplo, «travar o fogo». A dificuldade reside em encontrar quem queira dedicar-se à atividade. «Já não há pastores», comenta, certo que, para contrariar esta realidade, «o futuro está nas vedações». Vedar terrenos para a pastorícia, introduzindo «ovelhas, cabras e vacas de espécies autóctones», diz o responsável.
Aferir resultados ainda é precoce, desde logo porque as AIGP começaram a ser introduzidas em 2021 e os primeiros anos foram dedicados às «burocracias» de instalação. Só em 2024 é que a Caule conseguiu começar a agilizar medidas no terreno e, nesta altura, além dos 50 mil sobreiros em plantação, também já há manifestações de interesse de «três ou quatro pessoas» interessadas na atividade da pastorícia.
«Resultados só a longo prazo», diz Vasco Campos, assumindo que o modelo das AIGP, não sendo perfeito, é melhor do que o das ZIF- que acabaram por ficar para trás por falta de apoio, deixando muitos produtores “pendurados” - desde logo porque permite um acompanhamento dos proprietários e produtores por um período de 20 anos.
Retrato de 25 anos: mais eucalipto, mais mimosas e menos agricultura
Em 25 anos de atividade da Caule, que se assinalam hoje, Vasco Campos fala de uma paisagem que mudou, «com um aumento drástico do eucalipto» a que se junta «um aumento exponencial das invasora lenhosas - as mimosas -, um problema gravíssimo que ninguém quer ver» e o abandono da atividade agrícola. «O trabalho nunca está feito, sinto que às vezes ainda somos apontados como não estando a fazer trabalho», lamenta, lembrando que o primeiro a ter a missão de mudar o rumo da floresta seria o Estado, mas ainda assim são as associações como a Caule que assumem esse trabalho.












