
Estradas cortadas e água à porta no Vale do Mondego
Em Ereira vivem-se dias e noites em sobressalto. As águas já quase rodearam a localidade e está mesmo às portas das casas da rua principal. Ao princípio da tarde de ontem, os moradores, junto ao Canto João de Ruão, estavam de olhos postos na água que inunda a praia fluvial e os restantes campos de arroz, que ladeiam o principal e único acesso à aldeia.
É que, apesar das chuvas da última noite terem sido menos intensas do que estava previsto, a água continua a subir nos campos agrícolas do vale central do Mondego, na margem direita daquele rio, em redor da aldeia, exatamente porque Ereira «está no fim da linha» ou como dizia uma moradora «nós é que levamos com tudo».
Helena Almeida, com 80 anos, reside em Ereira, mais precisamente em Vielas das Casas Altas, há 60 anos e confessa que a última noite foi de alerta. «À meia noite, ainda aqui vim ao largo para ver a água», diz mas confessa que «apesar de tudo, está mais tranquila, pois as autoridades têm vindo falar connosco». Juntamente com o seu vizinho António Carvalho, recorda as cheias de 2001. «Nessa altura, sim, perdi tudo, roupa, sofás, camas». Já António Carvalho recorda que «há 25 anos, saí de casa pelo primeiro andar, foram os bombeiros que nos vieram buscar de barco».
Desta vez, António Carvalho diz que seguiu o conselho das autoridades e já passou os móveis do rés-do-chão para o 1.º andar. Andamos a trabalhar ontem todo o dia, com a ajuda da minha filha. Mas há sempre coisas que se estragam», confessa algo resignado, recordando que desde sempre «nos invernos, a água chegava-nos aos pés, mas sabíamos que rapidamente escoava. Agora é pior».
Um pouco mais à frente, mesmo junto à única entrada da aldeia, o Diário de Coimbra falou com Ana Freirinhas, que reside em Ereira há 36 anos. Acredita que este ano «temos os bens já protegidos», elogiando o trabalho das autoridades que têm andado por ali a aconselhar. «Nada como em 2001, altura em que fomos apanhados de surpresa. Em meia hora, a água subiu metro e meio. Não deu para salvar nada».
Mas nem só de «olhares atentos» estava ontem a aldeia de Ereira. Na Rua do Casal Novo, a azáfama era grande. Nos armazéns da empresa José Coelho Almeida, trabalhava-se com afinco para retirar o arroz da colheita de 2025 para lugar seguro, tal como o arroz de semente para outro armazém mais alto. A urgência prendia-se não só com as águas a chegar à cota do armazém, mas também pela eventualidade de o único acesso ficar intransitável, como aliás «ainda é expectável», se continuar a chover e atendendo às previsões de chuvas fortes na próxima quinta-feira.
Autoridades no terreno
Nelson Carvalho, presidente da Junta de Freguesia, que tem estado a acompanhar a situação junto dos moradores, referiu ao Diário de Coimbra que, «apesar de as cheias estarem a ser controladas, através das autoridades, Proteção Civil e Agência Portuguesa do Ambiente, o nível das águas continua a subir e é preciso estar atento». Até porque «a estação de bombagem do Foja não está a funcionar em pleno, primeiro dada a falta de energia e, como alternativa, a falta de capacidade do gerador».
De todo o modo, «temos acompanhado os moradores, de modo a que possam acautelar a salvaguarda dos seus bens», que tenham preparado um kit de sobrevivência, explicando ainda que, em caso de emergência, a Associação Cultural, Desportiva e Social da Ereira é o local de concentração e de apoio à população».
Localidades da margem esquerda quase isoladas
Se na margem direita, é a na Ereira que se vive a situação mais preocupante, as localidades da margem esquerda, nomeadamente Formoselha, Santo Varão e Pereira e Granja do Ulmeiro, já no concelho de Soure, a situação não é nada favorável.
A água já inundou os campos e fechou estradas e, para quem reside nestas localidades, nomeadamente na freguesia de Santo Varão, a alternativa para sair para Coimbra ou para Montemor-o-Velho obriga a desvios, com vários quilómetros a mais.
Para quem tem de se deslocar a Montemor-o-Velho, a alternativa é seguir para Figueiró do Campo, Ribeira da Mata, Casal do Redinho, Alfarelos, no concelho de Soure. Para Coimbra, a alternativa é seguir para Entre-Valas, Casal da Légua, Venda da Luísa, no concelho de Condeixa, até chegar a Coimbra.
Monitorização permanente do nível das águas
O nível das águas no concelho de Montemor-o-Velho está em permanente monitorização. Diferentes equipas dos Bombeiros Voluntários de Montemor-o-Velho percorrem pontos estratégicos entre Pereira e Montemor-o-Velho para avaliar a subida das águas. O Diário de Coimbra esteve com a equipa chefiada pelo adjunto Paulo Matos, em Formoselha, na margem esquerda junto à estrada que dá acesso à ponte, que fez o ponto da situação. «Felizmente que as chuvas não foram tão intensas como se esperava e o nível das águas desceu, mas é preciso estar atento. Além da monitorização, estamos no terreno, em ações de proximidade com as populações».













