
Empresário de Casal do Marachão “atira a toalha ao chão”
Os moradores precaveram-se, alertados para a possibilidade de a água atingir “os dois metros” em Casal do Marachão, freguesia de Figueiró do Campo, Soure. Mas nada fazia prever, dias antes, os efeitos destruidores da tempestade Kristin.
Joaquim Neves é o espelho da desolação. Ontem à tarde, com a ajuda de dois homens, andava a tentar «resolver o que é possível resolver», mas é taxativo: «Vou fechar». Ao fim de 25 anos, a loja de móveis Joaquim José Neves, Lda. tem os dias contados. «Não há nada que se possa aproveitar disto», diz o empresário, que nos acompanha ao longo dos três pisos do estabelecimento, onde a destruição é notória.
A força do vento partiu a maioria das gigantescas montas de vidro, com 1,2 cm de espessura, e atirou mobílias de quarto, de sala de jantar, sofás, "puffes" e artigos de decoração pela “janela fora”. A rua, paralela ao estabelecimento, ficou atulhada de móveis, com algumas das estruturas a provocarem sequelas nos telhados da vizinhança.
Os prejuízos "rondam os 60/70 mil euros"
Os prejuízos «rondam os 60/70 mil euros», conta Joaquim Neves, pronto para desistir daquele que tem sido o trabalho de toda uma vida. Com os dois “homens”, começou a colocar blocos no local onde antes estavam os gigantescos vidros. «Custam três/quatro mil euros cada» e são muitos os que seria necessário repor. «Não consigo!», desabafa. E nem equaciona correr às linhas de apoio anunciadas pelo Governo. «Estou com 60 anos, não vou endividar-me para o resto da vida!», diz, recordando que em 2001, aquando das grandes cheias, os prejuízos de «cento e tal mil euros» que teve no café (localizado ao lado), que então explorava, levaram-no a recorrer a uma dessas linhas de crédito. «Nunca pensei que teria que pagar 2.500 euros por mês» ao fim de dois anos, diz. “Vacinado” com esta experiência, desiste da ideia e àqueles que questionam o porquê de não ter seguro, responde taxativo: «não tenho vendas suficientes para pagar 300 euros por mês».
Entre móveis partidos, objetivos de decoração espalhados pelo chão e os destroços dos vidros das montras, o desassossego de Joaquim Neves não tem fim à vista. Para já, e muito embora seja certo que vai fechar a loja de móveis, tem que garantir a segurança e solidez do edifício, cujo primeiro piso está transformado em “armazém”… de destroços. «Tenho que guardar os móveis, mesmo estragados», afirma, explicando que se trata de uma exigência das Finanças que, «daqui a sete ou oito anos aparecem e temos que ter “direitinho”». «É um armazém para as Finanças!», critica.
"Andamos toda a vida a trabalhar para perder tudo!"
«Andamos toda a vida a trabalhar para perder tudo!», desabafa. «Ninguém tem culpa, é certo, e não culpamos ninguém, mas nós também somos de carne e osso», diz ainda. Todavia, apesar do desalento, Joaquim Neves tem-se “dividido”, nos últimos dias, procurando dar apoio a clientes que também sofreram o impacto do temporal, na zona de Coimbra. Por isso, e mesmo com a “casa em pantanas”, tem andado em ação de socorro, ajudando sobretudo a repor telhados. «Havia pessoas, algumas idosas, a quem chovia na cama», refere.
Este apoio a clientes, e particularmente o setor da reabilitação, instalação de armários e roupeiros, uma linha que a empresa desenvolveu nos últimos anos, por «necessidade de nos adaptarmos ao mercado», afigura-se uma alternativa possível. Uma loja pequena, em nada comparada ao enorme espaço de exposições da casa de móveis que o temporal destruiu, será o futuro para o empresário.











