
Rovisco Pais recupera memória e história da antiga leprosaria
As gavetas, fechadas durante décadas, abriram-se e permitiram descobrir um valioso património. São registos de doentes, de funcionários, de atos médicos, de investigação científica e da vida na aldeia terapêutica, que preservam o legado da última leprosaria portuguesa. Trata-se do Arquivo Histórico do Hospital Colónia Rovisco Pais, um projeto apoiado pelo programa Iberarchivos, em 2024, e liderado pela curadora Cristina Nogueira, enquadrado no programa de valorização cultural e científica da unidade de saúde. As gavetas abrem-se agora, tornando acessíveis documentos únicos.
«Este arquivo está salvaguardado», disse Cristina Nogueira, que destacou o caráter único do património da última leoprosaria portuguesa, uma aldeia terapêutica «dedicada a esta doença, a lepra». Uma aldeia e um hospital de «abrangência nacional», que adquiriu uma dimensão universal», tendo em conta as ligações «entre esta instituição e outras a nível internacional». Uma «doença emblema» que, no entender da curadora, «terá influenciado a seleção da candidatura», uma das três aprovadas a nível nacional e 40 a nível internacional. «Esta universalidade liga-nos e vamos valorizando estas histórias», disse, para destacar que antigas leprosarias da Noruega, Filipinas e Grécia «foram classificadas como património mundial da Unesco e outras estão em processo de avaliação».
A curadora fez uma viagem pelo processo, desde 2017, com a reunião dos arquivos, dispersos pelos diferentes pavilhões, a recolha de objetos museológicos e a respetiva reserva, em 2021, e a reorganização da biblioteca científica, que classificou como «espólio único, com publicações de todo o mundo, sem paralelo em Portugal». Seguiram-se os arquivos. Cristina Nogueira fez notar a «urgência» desta organização, pois «a instituição já recebia pedidos de consulta de familiares» de antigos doentes, o que acelerou a necessidade de «tornar o arquivo em algo acessível», salvaguardando a «sua unicidade e universalidade» e também a sua história, porque «a história da saúde retrata a evolução científica e a evolução humana».
Uma história centrada entre 1947 e 1996, período em que o Hospital Colónia funcionou - embora o arquivo continue, pois antigos doentes mantiveram-se no hospital e hoje são dois. São 833 caixas de documentos e ainda há «arquivos dispersos», que apresentam dados referentes à assistência clínica, processos laboratoriais e de investigação. No total, são processos de 1.128 funcionários, 4.737 processos de doentes e 375 processos de creche e infantário, esclareceu.
Este é um projeto que «não é apenas um exercício de arquivista, é um ato de justiça histórico e de dignidade humana», afirmou Jorge Lains, diretor do Conselho Diretivo do Departamento de Cirurgia Neuromusculoesquelética e Reabilitação, que destacou as histórias de vida de «mais de 4 mil doentes» que passaram pelo Hospital Colónia. Para o responsável, o primeiro a usar da palavra na sessão, que decorreu ontem à tarde no auditório da Unidade de Cuidados Continuados, este acervo constitui «um património da Europa e do espaço Ibero-Americano» e «um elemento de humanização dos cuidados dos cuidados de saúde».
Contributo para a história
Luís Filipe Santos, diretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, recordou a criação do Hospital Colónia, num contexto «marcado pelo medo, pelo estigma e pela exclusão social» associadas à lepra. «Uma instituição concebida como espaço de isolamento sanitário, que acabou por se afirmar como um espaço de cuidado, de ciência, de construção de uma comunidade com uma dignidade muito própria». A última leprosaria portuguesa foi «um verdadeiro micro-cosmos social», onde se desenvolveram «práticas médicas inovadoras para a época, formas específicas de organização do quotidiano, relações de trabalho, relações de solidariedade», disse ainda, ao realçar que a história do Hospital Colónia «é sobretudo a história de pessoas, de doentes, de profissionais de saúde, de técnicos e de famílias que viveram, trabalham e criaram laços». Registos que «permitem reconstituir com rigor a vida quotidiana da instituição e a evolução das políticas de saúde em Portugal» e funcionam como «fonte» para a História da Medicina, da assistência social, das políticas públicas de saúde, mas «também para a História dos Direitos Humanos». «Ao preservar a história e a memória de uma população marginalizada, este arquivo devolve voz, dignidade e visibilidade a quem durante tanto tempo foi remetido para a invisibilidade social», disse Luís Filipe Santos, para quem o apoio do programa Iberarchivos» representou «o reconhecimento internacional» deste património.
Helena Teodósio, presidente da Câmara de Cantanhede e da CIM-Região de Coimbra, destacou o legado ímpar que o apoio do Iberarchivos atesta. «Uma validação internacional da importância histórica deste arquivo, enquanto testemunho fundamental da luta contra a lepra, da evolução da medicina social e das políticas públicas de saúde».
Ambicionar ser património da Unesco
«Uma candidatura que muito nos orgulha, como comunidade, como região, como campus de saúde», afirmou o presidente do Conselho de Administração da ULS Coimbra. Francisco Maio Matos reforçou a importância do legado do Hospital Colónia e da salvaguarda desta «história singular da saúde pública em Portugal» e o seu contributo para a «construção da memória coletiva e para a história da saúde, nacional e internacional». Lembrou o estatuto de património mundial de instituições similares para deixar um desafio: «Este projeto distintivo pode ter a mesma ambição, desde que saibamos estimulá-lo».
Para Maio Matos, além da «preservação da memória», o Hospital Rovisco Pais constitui um «espaço de reflexão crítica sobre a evolução da saúde, da ciência, das políticas públicas e da forma como cuidamos das pessoas e como preparamos o nosso crescimento coletivo». «A saúde não é apenas uma questão clínica, é também uma questão social, cultural, ética e política», disse ainda, reforçando a aposta da ULS em «desenvolver a excelência».











