
Nada se perde, tudo se transforma e os hábitos são sempre para manter
O Zé Manel dos Ossos é um dos restaurantes mais emblemáticos de Coimbra, marcando o coração de locais e turistas que não se impedem de deixar nas paredes o seu agradecimento por uma experiência única. Através de décadas de serviço talhado ao público, sempre com uma felicidade que extravasa quem atende cada cliente, a mística do restaurante foi posta em causa após o falecimentos do senhor Zé Mário, último "dono" original.
A verdade, é que quem conta um conto acaba sempre por lhe apresentar um, ou mais, pontos. Com o aval da família do senhor Zé Manel (dono original) e do senhor Zé Mário (que se tornou responsável do espaço em meados de 1998) Ricardo Benedito, Bruno Benedito e Heráclito Teixeira tomam agora conta daquele que era, ainda é e sempre será o Zé Manel dos Ossos.
Numa almoçarada de histórias, "Tozé", filho do fundador Zé Manel, conta que «a vida nem sempre foi fácil» para o pai, que em 1959 abriu aquele espaço. «Isto no início era mesmo só uma tasca. Vendia vinho e pouco mais. Depois o meu pai ficou com este espaço e tornou-se mais uma casa de pasto, como se costumava chamar na altura» conta. Apesar da "casa" já estar maioritariamente assumida em 1961, quando nasceu, recorda a história do seu nascimento como um exemplo dos tempos difíceis da ditadura. «No dia em que eu nasci, mesmo aqui no piso de cima, o meu pai estava nesta mesa a tentar renovar uma Letra [um documento de pedido de empréstimo] para manter o espaço mais um ano».
Com a viúva de Zé Mário sentada, também, na mesa, o tema rapidamente caiu sob o ano em que o marido acabou por assumir o "controlo" do restaurante. «Foi um mútuo acordo quando o Zé Manel quis a reforma» começa por explicar, elaborando depois os motivos da entrega aos novos sócios. «Quando o Mário faleceu, deixámos o negócio a outros dois trabalhadores que estavam aqui há mais tempo, mas não correu bem. Íamos fechar o espaço, mas o Ricardo e o Bruno mostraram-se muito felizes por aceitar este desafio» e assim tem sido desde junho.
Se, de um lado da mesa, a calma e as histórias fluíam, do outro, Zé João, filho de Zé Mário e jovem na idade, tomava o gosto do pai e levantava-se repetidamente para "dar uma mãozinha" ao restaurante. «Aqui não consigo estar quieto. Em casa consigo, mas aqui não, não sei porquê» comentou o jovem, visivelmente feliz por estar num local que, de certo modo, também lhe é casa.
"Quando o Mário faleceu, deixámos o negócio a outros dois trabalhadores que estavam aqui há mais tempo, mas não correu bem"
Com o avançar da conversa, Bruno Benedito, único representante presente dos novos sócios (por motivos pessoais Ricardo e Heráclito não conseguiram comparecer no almoço), acabou por explicar a relação que mantém com o restaurante original. «É tudo o mais igual possível. Seguimos as mesmas receitas, o mesmo espaço, as mesmas tradições. Sabemos o que o Zé Manel dos Ossos é e o que representa, portanto sabemos que temos "sapatos" grandes a preencher».
O objetivo, sublinha, não é «substituir», mas sim dar «continuidade ao legado» e fazer as coisas de maneira a «deixar a família, e nós próprios, orgulhosos».
A fluidez da conversa acabou por levar ao debate sobre o restaurante vizinho que «não chateia», mas deixa um «sabor amargo» na boca pela proximidade dos próprios criadores. Porém, concordou a mesa, o trabalho deve ser feito «dentro de portas» para garantir a qualidade da oferta e a força interna do grupo que, agora, envolve trabalhadores e sócios novos, mas, também, a família de Zé Manel e Zé Mário.
E se o menu não mudou, as tradições também não. Ossos, “barriguinha”, chanfana, doce da casa e, caso queira a experiência completa, não se esqueça dos talheres, de “pedir” café e de deixar uma boa crítica no papel de mesa. Pode, ainda, arriscar “falar mal” ao livro de reclamações, mas talvez tenha mais sorte com a colher de pau.
Barulho é hábito, mas sempre por uma boa razão
Ir ao Zé Manel dos Ossos é sinónimo de barulho, mas noutros tempos o barulho era ainda maior. «Era hábito ouvir bater nos tachos e nas panelas» conta "Tozé", filho de Zé Manel. Para quem não conhece o porquê ou sempre achou que era só o "normal" de um restaurante, desengane-se. «Isso sempre teve uma razão. Na altura, antes do 25 de Abril, havia a PIDE. O meu pai e quem trabalhava com ele já reconhecia alguns dos agentes ou, simplesmente, não reconhecia alguma cara como habitual, e batia nas panelas para fazer barulho e, os habituais, já sabiam que naquele momento não se falava de política».
Neste momento a PIDE já não é uma ameaça, mas há um desejo que tanto “antigos” como “novos” gostavam de ver concretizado. «Há tantos espaços que são considerados de interesse cultural e que se tornam protegidos pelas suas dinâmicas internas. Temos de conseguir seguir esse caminho, tem de existir um trabalho conjunto com a Câmara de Coimbra em que nos ajudamos a tornar esta casa num Património verdadeiro e não entrar em conflitos que apenas dificultam a situação para ambos».











