
Almoço solidário e 100% vegetal celebra o Natal
João Silva, de 59 anos, açoriano de S. Miguel há muito radicado em Coimbra, foi um dos primeiros a chegar ao Terreiro da Erva, ontem, por volta do meio-dia. Consigo levava a Susy, uma bonita cadela castanha, companheira inseparável há «dois anos, cinco meses e três semanas». «Venho aqui almoçar», explicou ao Diário de Coimbra. Uma resposta pronta à «fome que chama», mas também ao «convite» feito por Rui Sousa, assistente social da Cáritas, responsável pela Equipa de Rua “Reduz”, que se juntou ao movimento Coimbra Animal Save na organização de um almoço solidário 100% vegetal.
«Não sei o que é que vou comer», dizia-nos João, que recentemente viu terminar o contrato, em regime de emprego de inserção, na recolha de lixo. Para já não se queixa com fome e garantia-nos que tinha em casa um frango para cozinhar. Todavia, «toda a ajuda é bem-vinda» e por isso deslocou-se ao Terreiro da Erva, para participar na refeição. Mesmo antes de entrar, João foi presenteado com uma caixa de “secas” para a Susy, que imediatamente deu a sua aprovação à iguaria, 100% vegetal.
De resto, a refeição, preparada para um grupo de 40 a 50 pessoas, em situação de sem-abrigo, com problemas de dependências e, de forma geral, com grande fragilidade económico-social, apresentava essa particularidade: 100% vegetal. Um projeto do Coimbra Animal Save, que teve ontem a terceira edição.
"Disseram-nos que tinha mais carne do que a da Cozinha Económica", embora a carne estivesse bem longe dali
Entusiasmada, Mia de Carvalho, do Coimbra Animal Save, diz que este almoço pretende «transmitir o sentido do Natal a pessoas que podem não o ter» e, ao mesmo tempo, alertar para o facto de ser «possível ajudar alguém, sem matar ninguém» (leia-se animal). Isto porque as iguarias da refeição, 100% natalícia, foram todas confecionadas «sem ovos, sem leite, sem manteigas», exemplifica.
A ementa incluiu caldo verde e legumes à Brás. «O ano passado disseram-nos que o bacalhau estava muito bom», recorda. Mas há mais! Na primeira edição foi preparada uma feijoada, igualmente muito elogiada. «Disseram-nos que tinha mais carne do que a da Cozinha Económica», embora a carne estivesse bem longe dali. Salsichas de soja e pedaços de tofu foram os ingredientes usados e, pelos vistos, bastante apreciados.
A grande aposta do menu volta a centrar-se nas sobremesas. O que a responsável do Animal Save justifica tendo em conta que, na maioria das situações de apoio alimentar, raras vezes há sobremesas e os utentes, sobretudo os mais idosos, “perdem-se” por uma guloseima. Ontem, o difícil seria escolher e, com toda a certeza, a melhor “saída” seria um “pijaminha”, para permitir provar um bocadinho de tudo. Uma mesa inteira de doces, sempre sem ovos e sem leite, com arroz-doce, pudim flan, filhoses de abóbora, rabanadas, bolo-rei, salame de chocolate e bolo-mármore. Sobremesas preparadas pelos voluntários do Animal Save e da Cáritas de Coimbra. Já a sopa e o prato principal chegaram pré-feitos, pela mão de um chef, e foram terminados nas instalações da Cáritas.
Sumos e café completaram a refeição e, além de comerem no local - decorado a preceito com motivos natalícios, procurando «criar um momento de encontro e de partilha» e convidar a viver o espírito de Natal - os participantes no almoço podiam levar “marmita” para casa, com uma refeição para a noite. À semelhança de João, que recebeu “secas” para a Susy, todos os proprietários de cães e de gatos foram contemplados com mantimentos para os respetivos animais.
Satisfeito, Rui Sousa, da Equipa de Rua “Reduz”, destaca a importância desta iniciativa, uma vez que «a oferta alimentar para as pessoas mais carenciadas é mais escassa ao fim de semana e, desta forma, temos a oportunidade de lhes garantir uma refeição digna».

Aplauso à Câmara de Coimbra
O número crescente de comensais que se iam juntando à porta fazia crescer o entusiasmo de Mia de Carvalho que, feliz, fez saber o empenho manifestado pela presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, em aderir ao Tratado Plant Based, que visa «mitigar o impacto das alterações climáticas com a aposta em alternativas alimentares», que reduzam a pressão sobre o consumo de produtos de origem animal. O almoço de ontem «prova que isso é possível», sublinha, mas entende que é fundamental «criar as ferramentas necessárias» para «tornar isso possível». No topo da lista coloca, designadamente, os valores do IVA que habitualmente taxam os chamados produtos alternativos.











