
Robalo Cordeiro: “Não entendo a necessidade” de abertura de mais escolas médicas
Tomou ontem posse para um quarto mandato e, no início deste novo ciclo, como define o atual momento da Faculdade de Medicina e quais as prioridades para os próximos dois anos?
Carlos Robalo Cordeiro Julgo que a faculdade tem evoluído muito significativamente nos últimos anos. Desde logo, com uma preocupação muito grande com as pessoas. Abriram-se muitos lugares de concurso - perto de 50 - durante estes seis anos para as diversas posições e equilibrando bem a coesão da escola, da Medicina, Medicina Dentária e investigação. Também se renovou o corpo técnico, temos mais 10 posições a termo e diminuiu-se bastante a precariedade. Havia bastantes contratos indeterminados e isso foi uma estratégia também da nossa faculdade. Para os alunos melhorámos condições de acolhimento, temos renovado os espaços de convívio, mas também de estudo, de associativismo e mais estão para abrir a breve prazo.
Esta foi uma preocupação muito grande e julgo que há uma certa coesão na escola, porque é importante valorizar as pessoas, são os ativos mais importantes. Uma das razões também por que eu me decidi candidatar a um quarto mandato: estamos num período de transformação que tem muito a ver, por exemplo, com a candidatura PRR de renovação tecnológica. Estão a chegar os equipamentos de simulação. Vai ser uma pequena revolução na faculdade.
Isso decorreu de um bom posicionamento que ficámos numa candidatura PRR que nos permitiu ter uma verba significativa para renovar estes equipamentos. É um dos aspetos mais relevantes para o futuro, a renovação tecnológica, digital, o grande investimento em simulação que vem, muito atempadamente, coincidir com as revisões curriculares que estamos a fazer no Mestrado Integrado em Medicina e no Mestrado Integrado em Medicina Dentária. Este mandato de dois anos tem muito a ver com vontade também de receber o produto daquilo que foi o nosso investimento nessa candidatura e também de ver o processo da revisão curricular terminado.
Em que ponto se encontra a revisão curricular e quais as principais alterações?
Estão em níveis diferentes. Em princípio, no primeiro trimestre de 2026, vamos conseguir enviar as duas propostas para a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). É uma alteração muito significativa para entrar em vigor, muito provavelmente no ano letivo de 27/28. Há uma componente muito forte na promoção de competências, não apenas do conhecimento e do raciocínio clínico, mas também das competências de profissionalismo, de ética, pensamento crítico, científico, etc, que nós estamos a promover nas duas áreas. Aliás, a Medicina Dentária, nesse aspeto, tinha uma reforma um pouco mais antiquada, se assim se puder dizer, porque, por exemplo, não tinha acesso a unidades curriculares opcionais, com as quais o aluno pode também formar um bocadinho o seu percurso. Unidades curriculares sobre medicina humanitária, sobre ética, sobre muitos pontos, sobre comunicação, liderança, que na Medicina já temos há uns anos disponíveis e na Medicina Dentária não e vão ficar agora disponíveis para conseguir, de alguma maneira, criar um currículo e uma formação baseada nas competências diversas, não apenas do conhecimento médico e médico-dentário.
Depois, uma outra coisa importante é o reforço da simulação e de facto o equipamento que vai chegar vai renovar e refundar muito significativamente o ensino. Hoje, cada vez é mais difícil fazer determinados atos ou ter determinadas práticas com alunos e doentes, até pelo número elevado de alunos que temos. E isso é algo que estamos a desenvolver particularmente no Mestrado Integrado em Medicina, e que hoje está completamente disseminado no ensino médico mais atual na Europa e no mundo todo. Portanto, há conceitos novos, nomeadamente estes de criar uma personalidade mais abrangente e não apenas médica, pura e dura, de reforçar muito o ensino por simulação e de dar estas competências para os futuros médicos saberem exatamente o que fazer perante as circunstâncias a que vão estar expostos. Esta candidatura PRR, nomeadamente este reforço à simulação, mas também o reforço tecnológico e digital no ensino em termos pedagógicos vai, de facto, ser uma pequena revolução e eu queria também assistir a isso como diretor. Esse é um dos aspetos. O outro é que a senhora ministra da Saúde, a 25 de setembro, no Colégio da Trindade, lançou conjuntamente connosco o Observatório Nacional de Saúde Global na Universidade e a liderança é da Faculdade de Medicina. Está numa fase de desenvolvimento e de criação de estrutura, de equipa, de rede e até de desenvolvimento de conceitos, por onde deverá expandir a sua atividade.
E há ainda o Laboratório de Ciência de Dados e Inteligência Artificial?
Está ainda em embrião, mas já com reuniões regulares para formar a estrutura, que foi, de alguma maneira, possibilitado pela abertura de uma posição de professor auxiliar nesta área, para a qual se contratou um engenheiro biomédico, pela criação de uma equipa que está a desenvolver a estrutura e por uma parceria com a tecnológica IBM, que vai permitir desenvolver um biobanco digital de imagem, que poderá ser um repositório de coleções organizadas e robustas para podermos participar em redes nacionais e internacionais de grande dimensão. Já temos um biobanco físico, vamos ter um biobanco virtual, que vai ser aberto a toda a academia na área das ciências da saúde.

Estes vários projetos PRR representam um financiamento de quanto para a FMUC?
Representou um financiamento de cerca de 6 milhões. O que é significativo, nomeadamente nesta área da simulação e no reforço tecnológico e digital em diversas unidades curriculares que estavam mais fragilizadas e também na constituição desta parceria com o IBM para a produção do biobanco digital. São boas razões para eu continuar, porque isto está tudo a começar e eu, com sinceridade, trabalhei bastante para isto e julgo que vai ser um mandato de realização de diversos projetos que estiveram sempre na nossa mente e que estão agora em desenvolvimento, e vai ser de facto o mandato de confirmação e de consolidação.
Depois tem a ambição de ir para a Reitoria?
É interessante. Não escondo, não excluo, claro que não. As eleições são em janeiro de 27. Julgo que este início do ano de 26 será importante para maturar essa ideia, possibilidade, essa disponibilidade, também para observar as condições e a realidade do terreno.
Relativamente à ambicionada unidade 2 mais 4, qual o ponto de situação?
Houve, recentemente, uma reunião com a CCDRC, também com a Câmara Municipal e a Reitoria. É um projeto que estará, espero, em 2026, assinado. Eventualmente, mesmo que não iniciado, pelo menos assinado. Aliás, há um compromisso do sr. reitor de ser lançado durante o seu mandato. O conceito da sub-2 mais 4 foi sofrendo algumas modificações, mas isso é mais de natureza interna, vai ser uma estrutura muito dedicada à investigação, mas, por exemplo, o grande centro de simulação vai ser instalado lá, como todo o nosso instituto de investigação, o ICBR, que está a ter uma renovação muito significativa, com a atração de outros grupos de investigação relevantes. Grupos de investigação e com plataformas tecnológicas novas vão ser instalados lá. E todas as unidades de investigação ficarão ali, também na Medicina Dentária, também no Laboratório de Simulação Preclínico da Medicina Dentária, a nossa simulação biomédica, espaços que têm, sobretudo, a ver com investigação, com espaços de reuniões, de auditórios, etc. para apoio a essa atividade. Isso permitirá também libertar muitos espaços nas estruturas 2 da subunidade 1, do ICBR e do AIBLI, para colocação destas unidades de ensino que ainda estão aqui no edifício do Pólo 1.
São seis unidades que ainda estão em ensino e essas unidades vão poder ser acolhidas com a libertação de espaços que vai haver na Sub 1, no ICBR e no AIBILI. Eu acho que daqui a uns 3, 4 anos estará tudo lá [Polo 3]. Manteremos esta área museológica e patrimonial. É uma memória que gostaríamos de preservar. É uma questão que é muito interessante discutir para o futuro. Eu gostava muito de fazer e desenvolver um conceito de um museu da Faculdade de Medicina, porque nós temos aqui peças verdadeiramente extraordinárias. Temos um museu de anatomia patológica, que é dos melhores que existem na Europa, com peças extraordinárias.
Temos também um repositório de equipamento histórico, de utilização, hoje apenas, memorial, que gostaríamos muito de colocar aqui numa área museológica. Esse é um projeto que tem de ser desenvolvido, se calhar, com a futura Reitoria. Devo dizer que o diretor da área museológica da Universidade, o professor [Paulo] Trincão sempre acarinhou muito esta hipótese. Acabou por não se concretizar, mas acho que vai ter que acontecer no futuro. Até porque há espaços aqui que vão ser libertados, porque no Polo 3 vai ser instalado o MIA - Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento, que está aqui muito neste espaço. O UC BioMed é, sobretudo, para acolher o MIA, que ocupa espaços de laboratórios aqui.
"Eu gostava muito de fazer e desenvolver um conceito de um museu da Faculdade de Medicina"
Os problemas de mobilidade no Polo 3 têm sido motivo de preocupação...
Vai ficar melhor, isso não tenho dúvida. Primeiro, vão ter que terminar essas obras do Metro e depois então, até com a aquisição que a Universidade fez agora de uma moradia que ali está entre as antigas bombas de gasolina e o hospital universitário e também o polo académico, tudo isso vai sofrer ali uma requalificação espacial e paisagística, inclusive, mas, sobretudo, de ligações. Essa ligação mais direta da componente universitária à componente hospitalar é muito importante. Andamos ali às voltas, é horrível. Com as viaturas, a circulação é perfeitamente caótica, a entrada é pelos dois lados, a saída é pelos dois lados, há circulação pelos dois lados em espaços que não têm, de facto, capacidade para isso. Até sobre o ponto de vista de segurança, às vezes criam-se ali situações que podem ser um bocado dramáticas. Um dia acontece um problema. Eu estou convencido que durante o primeiro semestre de 2026 ficará resolvido.
A limitação de recursos humanos é transversal a toda a Universidade. Como estão a decorrer os processos, nomeadamente tendo em conta as aposentações?
Estamos com um número muito significativo de aposentações antecipadas. Basta dizer que no dia da faculdade, nas homenagens aos docentes, investigadores e membros do corpo técnico aposentados, durante o ano, temos não apenas dois membros do corpo técnico, mas 10 docentes que se aposentaram durante este ano. Três apenas por limite de idade e sete com aposentação antecipada. Isto é revelador do que está a acontecer.
Nós tivemos agora um período de muitos lugares postos a concurso, não apenas para a entrada na carreira, para progressão, nos diversos escalões, professores associados e catedráticos, e agora, com este reequilíbrio que vai ter de ser feito, com as aposentações que estão a acontecer, vamos olhar para o perfil, para a percentagem de catedráticos e associados sobre auxiliares, que deve ser equilibrado, pelo menos 50%, e a Faculdade de Medicina tem conseguido manter esse número para ver qual a nossa possibilidade de abertura, não apenas para entrada na carreira, mas sobretudo para promoção – associados e catedráticos-, mas também na área da investigação.
Na realidade, abrimos 9 lugares nos últimos anos, mas, naturalmente, as pessoas também querem progredir na carreira e é justo que o façam, porque têm qualificação para isso. É algo que está a ser observado, que já foi objeto de conversações com a Reitoria, mas que vai exigir que, no próximo ano, terminada esta fase de concursos e, agora, com esta onda de aposentações, se façam novamente as contas e se vejam qual é o equilíbrio necessário e qual a possibilidade de abertura de vagas.
A Faculdade de Medicina continua a ser uma instituição muito atrativa, esgota as vagas no Concurso Nacional de Acesso. É sempre um bom indicador?
É um bom indicador, não temos vagas que fiquem por ocupar. Este ano até tivemos um contingente adicional dos estudantes internacionais. Pela primeira vez, foi possível às faculdades de Medicina incorporar estudantes internacionais, com um perfil diferente, com uma propina diferente. Só a Faculdade de Medicina da Nova teve mais estudantes internacionais que a FMUC. Também aí tivemos uma capacidade de atração muito grande, ficámos em segundo no número de estudantes. São 9. 11 na Nova e 8 na FMUL e depois os outros mais abaixo.
Como vê a abertura de novas faculdades de Medicina?
Não vejo interesse. Se se pensa que se vai resolver o problema do SNS com abertura de novas faculdades, não vejo como. Não é por aí, claramente. Estamos todos os anos a bater recordes do número de vagas que ficam por preencher nos concursos nacionais para as especialidades. Agora, foi o concurso para a colocação de especialistas, que começarão em janeiro. Ficaram 469 vagas por ocupar. No ano passado foi de 300 e tal. Há dois anos, 200 e tal. O que é preciso é criar condições de atração dos médicos para o SNS, não é aumentar o contingente de médicos. Nós já estamos a aumentar 2% ao ano o número de vagas nas nossas escolas. Já existe a Faculdade de Medicina da Católica, para o ano sairão os primeiros diplomados, já está a Faculdade de Medicina de Aveiro... Não é por isso que vamos ter mais médicos no SNS, como se está a ver. Estamos a ter cada vez menos. Não é por aí. Se se criarem condições para as faculdades que existem, concretamente aqui para a Faculdade de Medicina de Coimbra e outras, de financiamento, de capacidade de contratação, etc., etc., provavelmente conseguimos incorporar o número de alunos que se quer aumentar. Porque a ideia é que abrindo escolas no interior, isso fixará pessoas no interior. Não sabemos. Era interessante ver, pensando no interior e na UBI, por exemplo, quantos médicos lá ficam naquela região dos alunos que saem dessa escola. Julgo que esse estudo não está feito e não foi com base nesse estudo que se estão a abrir estas escolas novas e mais, seguramente, vão abrir, porque já percebi que há essa vontade. Mas, não entendo a necessidade.
O que pode destacar da celebração do Dia da Faculdade?
É um dia de homenagens e organizamos sempre uma sessão de caráter técnico, científico ou também de discussão, neste caso, da saúde global. O que vai acontecer são as homenagens, primeiro aos melhores alunos, aos aposentados e jubilados, docentes, investigadores e corpo técnico. Vamos também conceder uma medalha de ouro ao embaixador Almeida Sampaio, que se tem distinguido, não apenas na presidência do Conselho Estratégico do Centro Académico e Clínico, mas também na promoção da nossa proximidade com um fórum internacional. É uma pessoa que tem trabalhado muito para a promoção da nossa academia, da nossa área da saúde.
Depois temos essa sessão em que vamos ouvir falar de saúde global com três intervenções. Uma delas de um colega iraniano, Amirhossein Takian, que dirige o departamento de saúde global da Universidade de Ciências Médicas de Teerão. Ashish Joshi, diretor da Escola de Saúde Pública de Memphis, nos Estados Unidos da América, e a coordenadora do Centro da Ecologia Funcional, a professora Helena Freitas.











