
Depois do fogo, em Aigra Nova cria-se um rebanho para salvar a aldeia
A paisagem até chegar a Aigra Nova, no concelho de Góis, é por esta altura um manto de cinzas e árvores queimadas, onde começam a brotar pequenos rebentos dos eucaliptos e acácias, duas espécies invasoras que têm dominado a paisagem na região, mas que têm dado sinais de esperança de que será possível ver de novo as encostas vivas.
A chegar a Aigra Nova o silêncio vai sendo interrompido com o som dos chocalhos das cabras e das ovelhas que compõem um rebanho criado pela Associação Lousitânea.
A ideia não é apenas pôr as cabras e as ovelhas a fazer o trabalho de sapador florestal, é um projeto que vai além disso, como explicou Cátia Lucas, coordenadora da Associação Lousitânea, em conversa com o Diário de Coimbra, que visitou a aldeia a convite da Turismo Centro de Portugal.
«Preferimos dizer que é um rebanho comunitário. É um projeto muito recente e surgiu da necessidade de proteger a aldeia por causa do fogo que aqui passou no dia 15 de agosto e porque a Dona Lourdes era a única habitante que tinha um rebanho e disse-nos que iria acabar por vender os animais», explicou.
Foi aí que vedaram um terreno, preparam pastos, arranjaram um abrigo e hoje têm cerca de 18 cabeças de gado. Assim, conseguem ter a periferia da aldeia limpa e tornar o rebanho também ele uma razão para visitar Aigra Nova e viver algumas tradições que caíram em desuso.
«Temos algumas cabras e ovelhas já a dar leite e com isso podemos dinamizar workshops e atividades de ordenha, de fazer o queijo de forma tradicional e mostrar o que se fazia aqui antigamente», realçou Cátia Lucas.
Maternidade de Árvores foi criada há quase 20 anos e tem tido um papel fundamental na reflorestação da serra
Após o incêndio foi necessário organizar prioridades, definir estratégias e se o rebanho tem vindo a demonstrar ter sido uma decisão feliz da Lousitânea, a Maternidade de Árvores, outro dos projetos implementados em Aigra Nova ganhou uma dimensão importantíssima para a Serra da Lousã.
Criado em 2008, o viveiro de árvores autóctones - composto por carvalhos, pinheiros, azereiros, azevinhos, castanheiros e ainda medronheiros - guarda milhares de exemplares que serão o futuro da floresta.
«Aquilo que fazemos é uma gota no oceano, mas pode fazer a diferença», diz Cátia Lucas.
Quem visita a aldeia de xisto é, por isso, convidado a fazer parte do projeto e a apadrinhar uma árvore que depois será plantada na serra.
«As pessoas depois são convidadas a regressar e a plantar na serra a sua árvore e assim contribuir para a reflorestação sustentável», refere.
Trocou Lisboa pela paz de Aigra Nova
Cátia Lucas é coordenadora da Associação Lousitânea e há quatro anos trocou em definitivo a capital pelo ar puro e fresco da Serra da Lousã.
Ao Diário de Coimbra confessa que a “culpa” é dos próprios pais que, numa visita à zona, se apaixonaram e nunca mais esqueceram a vontade de ir viver para a Serra da Lousã.
«Hoje diria que não volto para Lisboa. Sou muito feliz aqui!», afirma, sempre com um sorriso de orelha a orelha.
Formada na área do turismo, optou por uma vida mais calma. Calma na maioria do ano e que só acaba quando a época dos incêndios se aproxima.
Este verão, no dia 15 de agosto, lutou ao lado de outros habitantes das localidades mais próximas contra a dimensão gigantesca de um incêndio que devastou toda a região ao longo de 11 dias.
«Passámos aqui dias muito complicados, mas com a ajuda de todos conseguimos salvar a nossa aldeia», desabafou Cátia Lucas, sem esconder a emoção de quem viu as chamas de muito perto.











