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“Pelos vistos parece que se passa muita coisa nos Açores”

“Ilhas Perdidas” é o novo livro de Dinis Carmo, médico ortopedista. Em três volumes conta a história pessoal de ir para os Açores praticar medicina pouco depois do 25 de Abril de 1974

O que começou por ser apenas um texto das suas memórias e da sua esposa, acabou por se tornar numa compilação de três volumes.

O primeiro foi apresentado na Sala Miguel Torga, da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), e é anunciado como o “início” do desenvolver do conhecimento de uma zona “desconhecida” para Portugal continental.

“Ilhas Perdidas”, de Dinis Carmo, é uma antologia de como foi encarar uma nova realidade logo após o terminar de um curso em Coimbra, nu­ma nova cidade.

«Eu e a minha esposa fomos para os Açores numa altura muito específica. Foi em junho de 1976 que nos formamos, apenas um ano depois do Verão Quente e dois anos depois do 25 de abril» conta o autor.

Continuando em análise ao “momento de partida” refere que «o ambiente universitário da altura era insuportável» o que motivou o casal a querer «mudar de ares», mesmo com muitas dificuldades.

«Na altura fomos através de duas vagas de mobilidade de Lisboa porque em Coimbra disseram-nos que não davam médicos aos fascistas açorianos».

Já sobre a construção do livro, menciona uma história interessante.

«Perguntaram-me como é que consegui escrever 900 páginas sobre os Açores, visto que é [um local] tão pequeno. Pelos vistos parece que se passa muita coisa nos Açores». A escrita, na realidade, é um hábito mais recente. «Sou médico especializado em ortopedia», conta.

A razão do tamanho do livro começou por ser «cómica», mas em última análise, acaba por «fazer sentido».

«Escrevia no computador com letras grandes e espaçamento ainda maior, achei que o livro ia ser pequeno. Mas depois de conversar com a editora lembrei--me que os livros não são do tamanho de uma página A4» o que fez com que o número de páginas do rascunho correspondesse à realidade.

«Tive de escolher entre cortar partes ou dividir em volumes» e essa escolha fez-se “sozinha” por entender que aquelas histórias deveriam ser contadas.

«São tudo factos. Coisas que aconteceram, então retrata uma realidade que, em certos aspetos, ainda hoje é verdadeira», explica o médico.

Na sua ótica ainda existem muitos detalhes que falham no Serviço Nacional de Saúde e na forma como “as ilhas” são tratadas, mesmo com uma evolução, ainda continuam a existir «vários problemas».

Os três volumes, que retratam a estadia do casal de 1977 até final de 1980, dividem-se em várias fases da vida pessoal e do Arquipélago dos Açores.

Um dos momentos que surge, mesmo que apenas no terceiro volume, é o sismo de 1 de janeiro de 1980, na ilha Terceira.

«Nós somos, efetivamente, sobreviventes do terramoto de 1980. O meu primeiro filho tinha apenas dois meses, tínhamos acabado de regressar do continente. Trabalhávamos no Hospital da Praia da Vitória, durante o serviço médico à periferia» conta, elaborando, «no dia 1 de janeiro celebrava três anos de casado e foi uma das experiências mais tenebrosas que tive na minha vida. Fiz muito pouco porque a destruição da ilha foi, sobretudo, na área de Angra do Heroísmo. Só me apercebi da gravidade do terramoto no dia seguinte porque, na altura, não havia telemóveis nem internet nem nada do género».

Uma realidade distinta, mas igual

Em conversa sobre o panorama que esperava e o que encontrou, faz um retrato estranhamente parecido do conhecimento que existia no continente e no arquipélago.

«No continente mal se conheciam as ilhas. Sabia-se que existiam, quase só isto. Quando chegámos percebemos que também havia desconhecimento do outro lado. As ilhas mais pequenas, como o Corvo ou Flores conheciam São Miguel e a Terceira porque já lá tinham ido para viajar ou para procedimentos médicos, mas o contrário não acontecia» explica.

Em contrapartida, conheciam bem os Estados Unidos da América.

«Era fácil encontrar pessoas que iam regularmente a Boston, por exemplo, mas quando me perguntavam de onde vinha assumiam Lisboa, e quando respondia que era do Porto a reação era “Do Porto de Lisboa!” e isso chateava-me imenso».

Apesar desta antologia se focar nos tempos nos Açores, passaram por outros locais que guardam grande história e onde o autor se prende emocionalmente porém «não sei se vou escrever mais, veremos».

Ligação entre Coimbra e os Açores reforçada pela apresentação do livro

Manuel Teixeira Veríssimo, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Francisco Gil, presidente da Casa dos Açores da Região Centro, e Mónica Seidi, secretária regional da Saúde e Segurança Social do Governo dos Açores, estiveram presentes na cerimónia e destacaram a importância da ligação da região centro ao arquipélago.

Em destaque na sua intervenção esteve Mónica Seidi, ex-estudante em Coimbra, que refletiu sobre «ligar Coimbra e os Açores», um facto que ocorreu no próprio dia da apresentação.

«O dia de hoje também fica marcado pela continuidade da nossa ligação, a qual ainda hoje aproveitei para reforçar, de forma institucional».

A governante defende que «partilhar estas histórias é sempre positivo» e reforça o sentimento de «orgulho» do Governo dos Açores em trabalhar em conjunto com o continente.

Mónica Seidi sublinhou que há um «simbolismo imenso» onde se percebe «claramente» a ligação do casal ao arquipélago.

Francisco Gil deixou, também, uma mensagem sobre «trazer a identidade açoriana para o centro» e apoiar estudantes e trabalhadores deslocados.

Dezembro 8, 2025 . 09:30

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