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“É uma obra única que ainda prende muitos mistérios que vamos resolver”

Diogo Lemos é investigador da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e conseguiu encontrar num leilão um quadro que se pensou “perdido” no tempo. Apesar de “muito completo” o acervo da UC ainda pode crescer

A história começa a 14 de dezembro de 2023. Em análise às obras de Hurbert Guerrand-Hermès que seriam levadas a leilão, Diogo Lemos, doutorando em História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) e investigador do Centro de História, da Sociedade e da Cultura da FLUC (CHSC-UC), encontrou um quadro único. Pintado por Domenico Duprà, a obra estava declarada pela curadoria do leilão como “Retrato de um Jovem”, porém Diogo Lemos percebeu que aquele “jovem” era D. José I, na tenra idade de 13 anos.
«Existem muitas peças portuguesas “perdidas” pelo mundo. No caso da UC, há uma particularidade muito feliz porque temos um acervo muito completo, que atravessa gerações e gerações. Somos uma entidade que empresta obras para museus, então é difícil ter achados desta relevância para a nossa universidade», conta o historiador e investigador. Neste caso, apesar da importância nacional e para a UC, a obra foi adquirida a “preço de saldo”. «Estava marcada com o preço de 3 mil euros, se não estou em erro, perto disso certamente. Neste momento tem um valor muito, mas mesmo muito, superior».
A obra foi rapidamente recuperada pela UC e seguiu-se um trabalho de restauro, que ficou a cargo de José Mendes, da entidade Princípios Válidos, que fez «um trabalho fantástico».
Mas, qual o relevo de D. José I para a Universidade de Coimbra? Explicado por Diogo Lemos, «D. José foi rei de Portugal de 1750 a 1777, logo tem um valor muito grande dentro do que foi a passagem da Universidade de vertente clerical para a Universidade Científica, ou seja, a altura da Reforma Pombalina». Deste modo, em 1726, um jovem príncipe foi “imortalizado” por Domenico Duprà, pintor que também pintou D. João V, pai de D. José.
«Esta obra está data e assinada no verso, de forma única, “Domingos, 1726”, ou seja, Duprà alterou o seu nome, “à portuguesa”, uma raridade. Temos um outro quadro do mesmo autor de D. João cuja data se enquadra entre 1720 e 1725», conta. Este outro retrato, porém, começa a levantar dúvidas. «Neste momento estou a investigar um pouco mais o quadro de D. João V porque está datado de 1725, porém há um detalhe que pode ter escapado a outros historiadores: a coroa», revela. E é sobre essa coroa que Diogo Lemos tem trabalhado. «Há fortes indícios que D. João V encomendou uma nova coroa, por volta de 1723. Pode encontrar-se esse detalhe noutras pinturas que mostram uma coroa diferente da encontrada neste quadro da Universidade, o que me leva a perguntar ‘porque é que o rei iria fazer-se representar com uma coroa antiga?’, ou seja, a datação pode ser mais antiga», comenta.

Os detalhes de D. José I
Na gravura recuperada, é possível ver uma figura jovem de vestimentas negras. Para os menos atentos, mas conhecedores da “Capa e Batina”, rapidamente se pode dizer que é esse o traje envergado pelo príncipe, mas não corresponde à realidade. «É muito parecido a um hábito talar, o traje académico da altura. Mas o traje negro era utilizado por vários membros da sociedade e, como temos bem registado, D. José não era um estudioso nem esteve integrado na universidade» começa por explicar o historiador. «Estamos certos que o príncipe vestia negro muitas vezes, mas aqui há uma clara intenção de mostrar que era um prodígio e um intelectual. A roupagem semelhante ao traje académico, com capa dobrada sobre o braço esquerdo, mostra uma clara tentativa de mostrar a sua cultura, mas em análise próxima consegue perceber-se, por exemplo, o canhão nas mangas muito largo, que difere com o hábito talar», explica.
Continuando em indicações da obra, identifica que não há «casaca adornada, não há qualquer insígnia distintiva, não há bastão de comando, não há manto de arminhos» destoando dos restantes retratos conhecidos de D. José I, sendo uma peça «única».
Versando, ainda, sobre os detalhes da peça, explora a própria posição do príncipe. «A sua mão está dentro da batina, com quatro dedos “escondidos” no interior e o polegar do lado de fora, sobre o peito. Esta forma de colocar a mão era prescrita como um sinal de modéstia, contenção de discurso e era ensinada a todos os que aprendiam oratória e oravam».
Todas estas características, conta o perito, são «propaganda régia». «Na década de 1720 houve uma clara tentativa de não só mostrar que o príncipe era um prodígio, mas também de mostrar a família real como erudita».

Retrato perdido
e novas investigações
«Temos registo de que a obra fazia parte do acervo pessoal de D. Manuel II, foi com ele para Londres quando se exilou. Depois do seu falecimento passou para D. Augusta Vitória, sua mulher e depois para o príncipe Alberto. Depois foi vendida a leiloeiras e acaba por chegar à coleção Hermès. Mas antes de tudo isto, não há nenhum registo da obra, ou seja, não se sabe qual o contexto da sua realização e não está referenciado em nenhum catálogo», é, por isso, necessário manter a investigação do retrato.
Apesar da raridade da descoberta o trabalho não termina e, por essa razão, Diogo “levanta o véu” do que está por vir. «Admito que podem existir outras obras em investigação e que podem vir a ser reveladas no futuro. Tenho algumas investigações iniciadas, mas ainda não há muito que possa revelar. Vamos ver».

Dezembro 2, 2025 . 09:59

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