
“Grávida do meu pai”: a história de uma menina que aprendeu a viver com medo
Como nasceu a ideia do livro?
A ideia nasceu há muitos anos mas foi sendo amadurecida e tornou-se realidade para mostrar às pessoas e ao mundo que isto acontece, mas que muita gente não tem coragem de falar nem de pedir socorro. Sempre acreditei que ao tomar esta decisão estaria a dar um bocadinho de coragem às pessoas que não o conseguem fazer. E não só. Também para dizer às pessoas que estão a passar por isto, já passaram ou conhecem alguém, que não se calem e façam prevalecer a justiça.
Quando é que começou?
Eu fui criada com os meus avós maternos e chegou um certo dia em que disse que queria ir morar com os meus pais. A minha avó era uma pessoa muito rígida e era muito violenta ao contrário do meu avô que era, e é, apesar de já ter morrido, o amor da minha vida. Não muito tempo depois de eu estar lá em casa, começou tudo e eu reconheci que afinal não era o que eu idealizava. No início era dia sim, dia sim. Para ser sincera, era quando lhe apetecia.
Mas a Carla andava na escola.
Eu andava na escola, o meu pai trabalhava quando lhe apetecia e a minha mãe estava em casa. Ele ia normalmente buscar-me à escola e levava-me para casa e fazia tudo o que lhe apetecia.
Nunca contou a ninguém?
Durante muito tempo não contei a ninguém. Mas aos meus 15/16 anos, houve um dia em que o meu pai estava à minha espera à porta da escola e eu decidi fugir. Saltei o portão da escola mas o porteiro agarrou-me e chamou a polícia e foi nessa altura que eu expliquei a situação à frente do meu pai. Os agentes disseram que eu já tinha idade para escolher e que não me podiam obrigar a ir com ele. Então, durante bastante tempo vivi na rua, comi dos caixotes do lixo, para fugir do monstro que me perseguia.
E a sua mãe?
A minha mãe era alcoólica e também era espancada brutalmente por ele. Passado algum tempo eu contei à minha mãe o que ele me fazia no quarto e ela olhou-me e respondeu: não estás bem? Então deixa-te estar. Entrei em pânico, engoli em seco e pensei para mim, que nem o apoio da minha mãe eu tinha. Custou-me horrores.
Perdoou-lhe?
Perdoei. Mas infelizmente não lho consegui dizer em vida pois não estava perto dela quando morreu. Nem lhe consegui pedir perdão.
Pedir perdão. Porquê?
Por a ter culpado ao longo dos anos por tudo o que me estava a acontecer. Porque afinal fomos as duas vítimas de um monstro. Ela era agredida violentamente e tinha medo de o enfrentar.
E ao seu pai? Já perdoou?
Não. Afastei-me completamente e a última vez que o vi foi no funeral da minha mãe e tive de pedir escolta policial. Mas no final, ele ainda foi pedir os meus contactos e a minha morada aos agentes, mas claro que não lhos deram.
Para continuar a ler este artigo
nosso assinante:
assinante:













