
Rafael Vieira venceu Prémio Adriano Lucas
Rafael Vieira é o vencedor da 10.ª edição do Prémio de Jornalismo Adriano Lucas, numa decisão unânime do júri ontem homologada pelo executivo municipal de Coimbra. O autor, arquiteto de formação, mas também com experiência de editor e jornalista, apresentou a concurso a reportagem “A Água das Catacumbas de Coimbra”, levando os leitores até um património desconhecido, histórico, aqui e ali lendário, com potencial científico e eventualmente económico.
Nos cerca de 12 mil caracteres permitidos, o autor, natural de Coimbra, vai à história milenar, depois à mais recente, para revelar os sistemas de captação, condução e distribuição de água da cidade de Coimbra. Mostra, pois, um universo hidráulico subterrâneo com algumas expressões visíveis, como o aqueduto de S. Sebastião, ao mesmo tempo que expõe o trabalho de investigação, feito por pura paixão e sem apoios, por um engenheiro geólogo e uma arqueóloga.
«Deu-me um grande prazer escrever» “A Água das Catacumbas de Coimbra” por várias razões, diz o autor, ao apontar o facto do «desconhecimento geral» deste património, «da arquitetura da água», de que a maior parte das pessoas só conhece o que está visível, ou as histórias «mitológicas» de um mundo subterrâneo que, dizem, terá sido usado como caminho de fuga nas invasões francesas ou para malandrices dos frades de Santa Cruz.
Nos cerca de 12 mil caracteres permitidos, o autor, natural de Coimbra, vai à história milenar, depois à mais recente, para revelar os sistemas de captação, condução e distribuição de água da cidade de Coimbra
Voltando à parte mais séria, Rafael Vieira quis evidenciar o desconhecido e também revelar o trabalho do engenheiro geólogo Paulo Morgado e da arqueóloga Sónia Filipe nesta área. Chamados para estudo no âmbito do Metro Mondego, em 2000, nunca mais pararam, por conta própria, «por interesse» científico, «por paixão». Nestes 25 anos já percorreram «seis, sete quilómetros» de subterrâneos, «mas há dezenas de quilómetros por explorar», contextualiza o vencedor do prémio.
O “click” para avançar com a reportagem surgiu com a descoberta de uma galeria nas obras da Escola Secundária José Falcão. Já tinha experienciado o deslumbramento, a emoção de revelar algo, quando, estagiário de arquitetura no Atelier do Corvo, participou na descoberta de um púlpito escondido no Laboratório Chimico da UC. Agora, «senti o mesmo», partilha em declarações ao Diário de Coimbra.
A partir daí encetou contactos, recolheu dados, tratou-os e formulou a notícia, valendo--se do gosto da escrita e de anos de experiência como jornalista. No trabalho, o autor explica o engenho dos antepassados, com destaque para os romanos, que foram buscar água ao aquífero de Celas para abastecer a Alta de Coimbra, fala da respetiva distribuição, de ribeiros e de galerias já identificadas como as da Praça da República e da Avenida Sá da Bandeira, entre outras, e de um sistema que funcionava e que continua a drenar água. Aliás, ainda funciona, com uma mina que abastece o Jardim Botânico.
Rafael Vieira, confesso buscador de prémios jornalísticos ou literários (já tem uns poucos), entende, tal como o engenheiro e a arqueóloga que entrevistou, que os diferentes sistemas hidráulicos subterrâneos são um património que deveria ser classificado e aproveitado, como «recurso educativo do ponto de vista patrimonial, ambiental, da sustentabilidade, economia circular, da gestão equilibrada dos recursos que temos, da engenharia. Temos estruturas que podem acolher visitas pontuais. Tantas formas de olhar para este potencial», lê-se na reportagem. Para se ter uma ideia, metade das águas que estão a ser desperdiçadas dava para regar todos os jardins da cidade, frisa o trabalho de Rafael Vieira.
Prémio de três mil euros
O autor, de 46 anos e natural de Coimbra, vai receber três mil euros pelo trabalho vencedor do Prémio de Jornalismo Adriano Lucas, coorganizado pelo Diário de Coimbra, Universidade e Câmara Municipal. Rafael Vieira é arquiteto de formação, mestre em Reabilitação de Edifícios e doutorando em Sociologia – Cidades e Culturas Urbanas, na Universidade de Coimbra. Também autor do livro “Os Salatinas” e do documentário “Salatinas” (obra conjunta com Filipa Queiroz e Tiago Cerveira), Rafael Vieira viveu e trabalhou como arquiteto em Lisboa, Barcelona e Antuérpia, e agora em Coimbra, com projetos de valorização do património urbano local como Tipos de Coimbra e Coimbrastreetart. «A escrita esteve sempre comigo», afirma, ao relatar experiências em revistas e magazines culturais, tendo sido repórter e editor. O trabalho “A Água das Catacumbas de Coimbra”, que assinou sob o pseudónimo Fernanda Mondego (inspirado numa personagem do romance O Conde de Monte Cristo) será publicado no Diário de Coimbra por ocasião da entrega do prémio, a 14 de dezembro, em cerimónia evocativa do centenário do nascimento de Adriano Mário da Cunha Lucas (1925–2011), diretor in memoriam do Diário de Coimbra.











