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Assédio sexual continua a dividir até mesmo quem vive ou denuncia

Um problema estrutural intrinsecamente relacionado com as perspetivas e ideais sociais que, em constante mutação, começam a dar visibilidade às vítimas. O caminho, porém, ainda é longo

É, ainda, um tema tabu para muitos. A partir da investigação e do trabalho académico, começa-se a “levantar o véu” sobre os casos relatados de assédio sexual e dão-se os primeiros passos para criar meios de denúncia funcionais e que protejam quem expõe as mais diversas situações.

O II Encontro “Igualdade de Género e Não Discriminação: refletir, prevenir e agir”, no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), organizado pela Comissão para a Igualdade de Género e Não Discriminação do Politécnico de Coimbra, levou a debate alguns temas como o assédio sexual, no qual Júlia Garraio, investigadora, apresentou alguns resultados alcançados em trabalhos passados.

Apesar do estudo apresentado não ser “representativo”, apenas estiveram em análise 18 participantes, a tradução é explicativa do “esperado”: os casos existem há muito tempo, mas os relatos e queixas ainda são poucos e “a medo”. «Existe uma área considerada “cinzenta” muito grande», identifica Júlia Garraio, ao mencionar que muitas pessoas não apresentam qualquer tipo de queixa, por considerarem que determinada ação «não chegou a ser assédio».

«É necessário começar a pensar nesta situação e falar dela nas escolas. Não é uma questão de “sexualizar” as crianças, isso não é uma realidade. É preciso alertar para as questões de igualdade, tolerância e, sobretudo, combater a ideia do que é “normal”», identificou a especialista. Questionada sobre esta necessidade de ensinar, Júlia Garraio admite que é quase “obrigatório” começar a explicar certos temas o mais cedo possível. «Temos de combater a mentalidade de que os rapazes têm de ter certos comportamentos para serem considerados “homenzinhos”, e é preciso combater o estigma da queixa masculina».

"É necessário começar a pensar nesta situação e falar dela nas escolas. Não é uma questão de “sexualizar” as crianças, isso não é uma realidade. É preciso alertar para as questões de igualdade, tolerância e, sobretudo, combater a ideia do que é 'normal' "

Com os relatos de assédio muito superiores do lado da vítima feminina, a especialista alerta que esses não são os únicos casos, mas «o medo de ser considerado homossexual» ainda combate o momento de vocalizar o abuso. «A existência de mecanismos de denúncia tem vindo a dar oportunidade a que todos se queixem, mas é preciso que os homens, que também são vítimas de assédio, percebam que podem apresentar queixas sem problemas». Utilizando como exemplo um estudo relacionado ao assédio na igreja, relata que «quase todos os casos são a rapazes, jovens», mas que as queixas foram quase nulas.

Mesmo assim, o auditório onde a sessão decorreu encheu-se, maioritariamente, de mulheres, de diversas idades, mas na grande maioria jovens. «É preciso que [os homens] apareçam. Para perceber o que podem estar a fazer de errado, para saberem como combater e como ajudar e para, sobretudo, entenderem sobre as denúncias. Ainda bem que há pessoas neste auditório, mostra preocupação» admitiu Júlia.

Júlia Garraio
Júlia Garraio, investigadora

Mecanismos de denúncia são uma “novidade”

A investigadora Júlia Garraio explicou que os mecanismos de denúncia que, agora, começam a existir são «muito recentes», mas são um passo muito importante para o futuro. «Temos uma base para trabalhar e para melhorar. Antigamente não existiam mecanismos, era impensável fazer alguma coisa em relação a estes aspetos e eram completamente desvalorizados. Hoje em dia já há uma mentalidade diferente e já sabemos o caminho a seguir, é importante que se continuem a fazer denúncias, anónimas ou não, para podermos aperfeiçoar os mecanismos».

Novembro 13, 2025 . 08:20

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