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Memórias: Árbitros faltaram aos jogos em conflito com a Associação de Futebol

10/10/1937 | Juízes de campo protestaram contra a falta de resposta da AFC ao pedido de nova tabela remuneratória e policiamento em todos os jogos

A nova época futebolística em Coimbra, no ano de 1937, começou a 3 de outubro no campo de Santa Cruz com a vitória da Académica sobre o União por três bolas a zero, em jogo arbitrado por Vasco Ataíde, cuja prestação, no relato feito neste jornal, foi qualificada como «francamente má, daquelas que não logram agradar a qualquer das fações».

O arranque da nova temporada desportiva ficaria marcado por um desentendimen­to entre os árbitros e a direção da Associação de Futebol de Coimbra (AFC), que levou os juízes de campo a decidirem, em protesto, não comparecer aos jogos da segunda jornada.

Na origem do conflito estava uma série de reivindicações, remuneratórias e não só, expostas numa petição que foi entregue em finais de setembro por uma comissão representativa de duas dezenas e meia de membros do “Colégio de Árbitros” da AFC.

Tendo como subscritores Mário de Oliveira, Manuel de Oliveira e Albano Cunha, o documento solicitava aos dirigentes da Associação de Futebol a aprovação de uma nova tabela de remuneração para árbitros e fiscais de linha, mas também o «policiamento de todos os jogos», incluindo os de categorias inferiores, «entrada grátis para todos os jogos em lugar de bancada» e verbas para a compra de equipamentos. Exigia ainda, entre outras medidas, que fossem castigados «com o máximo rigor os jogadores expulsos do retângulo do jogo pelos juízes de campo» e que «no caso de agressão a algum juiz de campo», deveria a AFC «prestar--lhe todo o apoio moral e material que ele necessitar».

AFC também decidiu suspender os árbitros de Coimbra, mas retiraria o castigo a 15 de outubro de 1937

«Parece que os dirigentes da AFC não estão na disposição de satisfazer as aspirações dos nossos árbitros, a julgar pela forma morosa como têm dado andamento ao assunto, não obstante o respetivo memorial ter dado entrada na secretaria da referida entidade dirigente há cerca de 15 dias. Oxalá que os árbitros e diretores cheguem a acordo para a solução de tão momentoso assunto, pois, segundo nos informam, a não serem atendidas as suas pretensões, o colégio não fornecerá árbitros para os encontros de domingo próximo», publicou o Diário de Coimbra na edição de 8 de outubro.

Perante a falta de respostas, os árbitros reuniram-se sábado à noite na redação do jornal A Voz Desportiva, na Rua da Moeda, e decidiram cumprir a ameaça de greve, confirmando a não comparência nos jogos do dia seguinte. Efetivamente, nesse domingo, para o torneio “Taça Cidade de Coimbra” a Associação de Futebol teve de «fazer deslocar dois árbitros, um de Aveiro e outro do Porto», para os jogos entre clubes inscritos na Divisão de Honra da AFC que foram disputados no campo do Arnado – o da Académica com União terminou com empate a uma bola, e a Naval da Figueira venceu o Conimbricenses por 2-1.

Na avaliação destas arbitragens, o Diário de Coimbra observou, na edição de segunda--feira, que «ambos se portaram o pior possível, dando os seus trabalhos margem larga a protestos».

Os árbitros de Coimbra, que voltariam aos jogos nas jornadas seguintes, graças também a diligências feitas pelos clubes para tentar desbloquear a intransigência da AFC, viram satisfeitas algumas das suas pretensões, mas a polémica ainda reacendeu e manter-se-ia nas páginas dos jornais ao longo desse mês de outubro.

Novembro 9, 2025 . 08:20

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