
Memórias: Condutor sem carta mata criança ao tentar ultrapassar o elétrico
A notícia que o Diário de Coimbra publicou a 8 de outubro de 1937 deixou a cidade em choque.
Na véspera, pouco depois das nove da manhã, um automóvel que seguia do Largo Miguel Bombarda (Portagem) para a Praça 8 de Maio despistou-se ao tentar ultrapassar o carro elétrico n.º 9, da linha 5 (Montes Claros), atingindo violentamente um menino de quatro anos e meio que se encontrava no passeio, na Rua Visconde da Luz, junto à loja de vidros da firma Neves & C.ª, Lda, de que o pai era sócio.
«A morte de Francisco Cruz Neves da Costa foi sentida não só pelos pais e família, mas por toda a população da cidade, atendendo às condições em que se deu», escreveu o jornal, lamentando que «a pobre criança tenha sucumbido por culpa de um condutor sem carta de motorista que imaginava, como tantos outros, ser uma rua da Baixa uma pista para corridas de automóveis».
Não conseguindo completar a manobra de ultrapassagem, «por excesso de velocidade e pouca habilidade, aliadas à inexperiência» do condutor, o automóvel foi chocar com o prédio da mercearia de Aires Mendes Freire, «atingindo quase em cheio o pequenino Francisco», que acabaria por falecer nas urgências dos Hospitais da Universidade, «devido à gravidade das suas lesões internas».
O causador do acidente, Celso Ribeiro, de 33 anos, guarda--livros residente no Porto, «naturalmente horrorizado com o que viu e de que era o único culpado, fugiu, apresentando--se passado algum tempo na 2.ª Esquadra da PSP», onde declarou não possuir carta e que viajara para Coimbra, no carro de outro homem que o acompanhava, especificamente para a tirar nesta cidade, pois teria reprovado no exame de condução no Porto.
Lembrando outros graves desastres ocorridos no canal das ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, o Diário de Coimbra frisou a urgência de resolver o problema do trânsito intenso e inseguro na zona central da cidade.
«Falta capacidade para o movimento de veículos que ali se regista durante o dia e noite, tendo além disso a afrontá-la a dupla linha dos elétricos, que é, incontestavelmente, uma das causas principais dos desastres que ali se dão. É certo que ao volante de muitos automóveis, e no selim de muitas motos e bicicletas, vão variadas vezes pessoas que abusam, abuso que a polícia tem por dever reprimir. Mas é certo, também, que se a rua não estivesse afrontada com o vaivém constante dos carros elétricos, ela, apesar da sua pequena capa-cidade, sempre dava margem a poder escapar-se a um desastre qualquer veículo que se encontrasse na iminência de lhe suceder. Que fazer então? Tratar do seu descongestionamento, facto a que por vezes nos temos referido, acabando por ali com a via dupla, e com a passagem de determinados veículos que bem podem seguir por outras ruas, estando neste caso as bicicletas, que são utilizadas na sua maioria por operários que das suas aldeias vêm para os seus trabalhos em Coimbra, para os quais se podem dirigir por outros trajetos. E, para já, a proibição terminante da ultrapassagem dos veículos, desde a Praça 8 de Maio ao Largo Miguel Bombarda, pois é deste facto, como anteontem sucedeu, que resultam os mais graves desastres. Este mal deve ser remediado, custe o que custar, pois a cidade não pode continuar na contingência de ver transformada a sua principal artéria numa artéria fatídica», defendeu na edição de 9 de outubro.
Muitas centenas de pessoas acompanharam o funeral do pequeno Francisco, da Sé Nova para o cemitério da Conchada, numa «verdadeira manifestação de pesar e de protesto», registou o Diário de Coimbra.












