
“A responsabilidade que eu sinto hoje é avassaladora, quase que nem deixa saborear a vitória”
Falámos há cerca de quatro meses e nessa altura prometeu ser prática e direta desde o primeiro dia. Agora que venceu, neste primeiro mês em Coimbra, o que é que vai mudar?
Ana Abrunhosa Primeiro, quero falar com todos os trabalhadores e garantir-lhes que estamos aqui para trabalhar com todos. A segunda coisa é mudar o atendimento para os Paços do Concelho. Entendo que as atuais instalações não têm a dignidade que merece o espaço de atendimento. Depois, pretendo, no primeiro mês, ter várias reuniões fundamentais, como será o caso dos SMTUC.
Concorda com o caminho já iniciado de transformar os SMTUC em empresa municipal?
Eu defendo a empresa municipal mas com um pormenor que não é pormenor. Que os trabalhadores mantenham o vínculo à Câmara Municipal. São cedidos por interesse público e depois terão a mesma remuneração dos que sejam contratados pela empresa municipal. Quando há uma empresa municipal, o contrato de trabalho passa a ser um contrato de trabalho individual. Mas os trabalhadores antigos têm a prerrogativa de manter o vínculo à Câmara e de serem cedidos pela Câmara à empresa municipal. A partir daí, integram uma carreira que é criada no âmbito da empresa municipal. E na minha perspectiva têm que ganhar o mesmo que aqueles que forem contratados. Mas este presidente não garantia isso.
Estávamos então a falar das suas prioridades iniciais.
Sim, com a Metro Mondego é muito importante eu perceber os trabalhos que estão previstos, como é que está previsto o trânsito e o impacto das obras. A questão da higiene urbana é outro problema. Quero reorganizar toda a higiene urbana, porque algo que me incomoda muito é ver a nossa cidade descuidada.
O trânsito, pelo que foi dizendo, será outra das áreas a atuar rapidamente.
Preocupa-me muito que haja freguesias sem transporte público camarário, é uma das maiores preocupações que temos. A reorganização dos serviços também me preocupa. Não é só a questão do atendimento, mas temos vários serviços dispersos e eu quero que eles estejam o mais concentrados possível.
"Nós vamos devolver a alma à Casa da Escrita"
Nessa reorganização de tarefas que está a fazer, entre os pelouros da sua vereação, admite que haja alguém da oposição com pelouro?
Para já não estou a pensar nessa possibilidade. Acredito que a oposição será responsável, até porque se olharmos para os programas eles não são assim tão diferentes uns dos outros. Creio que os conimbricenses nos deram este voto de confiança porque acreditaram que conseguiríamos concretizar. Deixe-me só dar nota de outra preocupação que temos, que é grande. O concurso da Alta Velocidade já devia ter sido lançado pelo Governo e não foi lançado. E o concurso para a maternidade também já deveria ter sido lançado e não foi. São situações importantíssimas, não só para Coimbra como para a região. Questões em que a responsabilidade é do Governo mas cabe ao município também colocar essa pressão. Sabemos que está tudo pronto para o concurso da maternidade avançar, a ULS tratou disso, aguarda-se uma portaria do ministro das Finanças. No que toca à Alta Velocidade houve um concurso que foi anulado e de lá para cá nada aconteceu. Primeiro disseram que o concurso ia ser lançado em maio, mas nós já estamos em outubro e ainda não foi lançado. Ora, tudo o que atrasa a Alta Velocidade atrasa o desenvolvimento de Coimbra porque nós acreditamos que a Alta Velocidade reforçará a centralidade de Coimbra.
E há outra questão que nos preocupa muito, o Urbanismo. Nós, ao contrário do que o senhor presidente foi dizendo, temos muitas queixas. E portanto, serei a vereadora do Urbanismo, pelo menos no início. A Câmara tem que adotar rapidamente a solução tecnológica que é a BIM para que os processos entrem por via informática e se possa tomar uma decisão muito mais rapidamente. Penso que isso envolverá refazer toda a estrutura informática da Câmara. A Câmara nada fez até agora por isso, portanto vamos começar também pela parte informática, de modo a que no Urbanismo desapareça o papel e passemos a ter a plataforma e o sistema que a lei vai obrigar no futuro.
Desde as eleições, já se reuniu formal ou informalmente, com José Manuel Silva?
A primeira pessoa a dar-me os parabéns foi José Manuel Silva, no dia das eleições. Eu entretanto fiquei doente e agora, obviamente, vou pedir-lhe uma reunião para fazermos a transição de pastas e termos as reuniões que forem necessárias. Quero deixar-lhe aqui uma palavra de apreço ao trabalho feito, à sua equipa e a todos os vereadores. Porque, hoje em dia, termos pessoas que abraçam a causa pública é mesmo para lhes agradecer. São missões muito difíceis.

"A primeira pessoa a dar-me os parabéns foi José Manuel Silva, no dia das eleições"
Em campanha mostrou-se contra a construção de uma nova travessia para libertar a Ponte Açude. Tendo em conta os problemas existentes no eixo Almegue-Ponte Açude-Casa do Sal, como pensa atuar?
Prefiro criar circulares externas. Ou seja, está previsto o anel da Pedrulha. Está prevista uma via estruturante São Martinho-Santa Clara. É preferível se dispersarmos o trânsito numa circular urbana, em vez de o confluir todo para a Ponte Açude e fazer dali um ponto de atravessamento. Portanto, se nós conseguirmos levar o trânsito para a circular que hoje já existe, fazer uma ligação, por exemplo, dessa circular ao Pediátrico, se conseguirmos que elas entrem na cidade através de uma circular urbana que já está prevista no PDM há muito tempo.
Pretende avançar com essa circular?
Acho que é melhor solução do que estar a falar de uma ponte que não foi estudada sequer. E essa ponte o que vai fazer é continuar a trazer o trânsito de atravessamento para o miolo da cidade, sobretudo porque com a Alta Velocidade Coimbra vai reforçar a sua centralidade e nós queremos expandir e densificar a cidade da Estação Nova até Coimbra B. Ora, vamos pôr sobre essas urbanizações e sobre o Choupal uma ponte? Parece, e volto a dizer, que não há estudos. Eu fiz contactos com a IP e ninguém sabe dessa ponte. Foi um ilusionismo de campanha apenas. O que nós devemos fazer é olhar para o que já está aprovado em PDM e construir, retirando o trânsito de passagem da Ponte Açude. Mas há soluções de curto prazo, como fazer vias de aceleramento. E temos também a rotunda do Almegue onde é possível fazer como na Guarda Inglesa, com desnivelamento para o trânsito de atravessamento e o trânsito local circular na rotunda que está por baixo. Fizemos, na campanha, um filme com Inteligência Artificial, mas com todas as cautelas, sem que aquilo pareça um sonho irreal. Há soluções já previstas e há outras que ainda podemos trabalhar. Temos que diminuir o número de carros que entram na cidade e temos que fazer parques de estacionamento periféricos e depois, se possível, um canal, ter transporte público, mas sobretudo ter corredores BUS.
Além do Metrobus?
Sim, além do Metrobus. Nós sabemos que o Metrobus não vai chegar a todas as freguesias para já. E primeiro temos que o densificar na própria cidade. A Metro Mondego ainda não fez nenhum estudo de viabilidade relativamente ao Metrobus para concelhos vizinhos. O único estudo de viabilidade que houve foi da Comunidade Intermunicipal, mas a CIM não é a autoridade de transportes do Metrobus. Tem que ser a Metro Mondego a fazer esses estudos.
Tem prazos para a abertura de novos troços?
Não tenho. Uma das minhas prioridades é reunir com a Metro Mondego para perceber o andamento das obras. Sei que houve obras que foram paradas e que não foram continuadas por causa das eleições. Agora quero perceber porquê.
Paradas ?
Sim. Por causa das eleições, naturalmente. Estava prevista a obra do Metrobus em Celas, que foi interrompida. E a da Via Central foi de algum modo desacelerada. E, portanto, agora já não há motivos para isso. O que neste momento me preocupa é o impacto do Metrobus também em termos de mobilidade e do próprio trânsito na cidade. Nós temos assistido nos últimos anos a um trânsito caótico que não se justifica.
"Nós temos assistido nos últimos anos a um trânsito caótico que não se justifica"
Já disse que é a favor da empresarialização dos SMTUC. E a gestão do Convento São Francisco merece uma abordagem semelhante?
O Convento São Francisco não pode continuar a ser gerido assim. Vamos ter uma vereadora da Cultura que vai garantir que há uma Direção Artística e uma Direção de Programação. É o mínimo que um equipamento como o Convento São Francisco tem que ter. Penso que olhar para a Cultura em Coimbra através de uma figura de uma empresa municipal é algo que não excluo também, mas com menos urgência do que os SMTUC, naturalmente. Mas é algo que não deixo de parte.
Ainda na Cultura, que planos tem para a Casa da Cidadania e da Escrita?
Está no nosso programa. Nós vamos devolver a alma à Casa da Escrita. Isso passa por retomarmos o projeto inicial. Fazermos pontes com outros municípios que também têm casas de escritores, de fazer rotas literárias. Passa por dar uma importância à literatura que não tem sido dada em Coimbra.
Falando em processos que pretende reverter face ao que foi decidido nos últimos quatro anos, o contrato de gestão do Estádio vai ser revisto?
Em termos jurídicos, queria muito analisar a possibilidade da Académica poder organizar eventos e que as receitas desses eventos pudessem de facto ser um fôlego financeiro para a Académica. Como sabe, foi este Executivo que colocou este problema, ele não existia no passado e portanto vou estudar juridicamente a possibilidade de qualquer evento que haja no estádio, possa ser a OAF a organizar. Foi a palavra que dei, é a palavra que vou manter.
Eu fiz uma campanha de muita proximidade e o que mudou em mim é que sinto uma grande responsabilidade
Falemos agora da Baixa de Coimbra. Prometeu que iria morar na Baixa.
Pois é e já estou à procura de casa.
A que se deveu essa promessa?
Lembra-se de António Costa que em Lisboa mudou os serviços públicos para um bairro que era o mais problemático? E eu disse isso porque se a Baixa é boa para a presidente da Câmara viver, terá que ser boa para qualquer pessoa viver. Eu tenho a minha casa, naturalmente, portanto eu vou ter uma casa pequena na Baixa, mas é sobretudo uma questão de simbologia. Mas também para eu sentir as dificuldades. Onde é que uma família com filhos que vai às compras estaciona? Está a chover, como é que eu venho para casa? É tudo isto que eu quero pensar e pensar lá. Porque parece-me que não há resposta ainda para isto. E nós, além de requalificarmos a Baixa, temos que ter pessoas que tenham condições de vida. Eu preciso de sentir a Baixa. Como é que uma família normal vai viver para lá com filhos e como é que chega à sua casa? Se tiver carro, ou como é que faz? Estes problemas concretos, quem está a gerir tem que os sentir. Pode dizer-me, não precisava de viver para a Baixa para saber isso, é verdade. É simbólico. E na política estas cargas simbólicas têm importância. Portanto, procuro uma casa na Baixa.
A Quinta das Bicas é foco de preocupação?
Preocupa-me muito em termos de transportes, em termos de escolas, o que é que se fez em termos de carta educativa para integrar aquelas crianças, o que é que se fez em termos de ação social para integrar aquelas famílias, o que é que se fez em termos de equipamentos. É um problema com o qual teremos que lidar com a maior das sensibilidades e é também uma das prioridades, as casas têm que estar concluídas em junho do próximo ano, no mínimo. E era importante que quer a escola, quer o centro de saúde, quer outras áreas que são fundamentais para estas famílias, estivessem definidas antes das pessoas irem para lá morar.
O que mudou em si nestes últimos seis meses ?
Fiquei a conhecer muito melhor Coimbra. Eu fiz uma campanha de muita proximidade e o que mudou em mim é que sinto uma grande responsabilidade. Eu sentia no início uma grande responsabilidade, mas hoje essa responsabilidade é avassaladora. Sinto que muitas pessoas colocaram esperança em nós porque as estatísticas eram contra nós, era normal que as pessoas não acreditassem porque nos associavam a uma governação anterior que descontentou muitas pessoas, e portanto o que me mudou em mim foi conhecer Coimbra muito melhor, conhecer as pessoas que acreditaram que somos capazes. Aquela responsabilidade que eu sinto hoje é avassaladora, quase que nem deixa saborear a vitória. Eu tinha vontade de abraçar o projeto, mas hoje essa vontade cresceu e a vontade de transformar Coimbra cresceu ainda mais. Porque senti essa vontade nas pessoas e as pessoas passaram para mim essa vontade. O descontentamento foi passado para mim. E há coisas pequeninas que podem ser mudadas e que podemos fazer em quatro anos, há outras que sabemos que quatro anos não chegam. Nestes meses, aumentou a vontade de mudar e aumentou a grande responsabilidade. Senti ainda que é um trabalho muito solitário, mas também sinto a confiança de que criei à minha volta uma equipa extraordinária. Isso dá-me confiança.
Vai candidatar-se à presidência da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra?
Vou pensar. É algo que acho que tem que ser conversado tranquilamente com os autarcas e portanto é algo em que estou a pensar.












