
Fragmentação global não deve justificar desinvestimento e “abandono” na saúde
A Cimeira Mundial de Saúde (CMS) ainda é, para muitos, desconhecida. Com menos mediatismo que a Assembleia Geral da Saúde, da Organização Mundial da Saúde, a cimeira tem um papel importante, principalmente na ligação académica entre os seus participantes que se deslocam até Berlim, Alemanha, para participar num conjunto de palestras e mesas-redondas sobre temas estruturantes da saúde mundial.
Sob o tema “Assumir Responsabilidade pela Saúde num Mundo em Fragmentação”, foram vários os intervenientes ligados a Portugal, à Universidade de Coimbra (UC) e, sobretudo, à saúde que dotaram os ouvintes com “esperança” para o futuro.
Em início de sessão, Axel Radlach Pries, presidente da Cimeira, refletiu sobre a presença de Coimbra na iniciativa e adicionou o foco na saúde que é «indispensável». «A saúde global é a saúde do globo. Os vírus não se preocupam com fronteiras, aprendemos isso com a pandemia e temos de combater todos os problemas [de saúde] mundiais sem ligar a fronteiras».
Como moderador convidado, Carlos Santos, administrador hospitalar da ULS de Coimbra, mencionou um «paradoxo» que se vive atualmente no mundo da saúde como mote para a reflexão. «Hoje, na saúde, temos muito conhecimento e muita tecnologia, porém a erosão global e os conflitos dificultam a sua ação».
Investindo na discussão dos temas estruturais que a saúde mundial enfrenta, Ana Paula Martins, ministra da Saúde, defendeu os pontos de «equidade» e «universalidade» para todos. «As políticas aplicadas na saúde têm de ser adaptadas às mudanças geopolíticas e, por isso, enfrentam mudanças consequentes de cada momento. Isso, porém, não deve minimizar o investimento e os esforços feitos na saúde», defendeu a ministra, que ainda referiu a «fragmentação» do sistema interno, em Portugal, que dificulta o conhecimento da CMS e que dificulta a entrada em ação de mais estruturas com as da UC, que já estão presentes.
O embaixador de Portugal em Praga, Luís Almeida Sampaio, e Carlos Robalo Cordeiro, diretor da Faculdade de Medicina da UC, avançaram com a ideia de «dinamizar» e «apoiar» projetos da «Aliança Académica» que se constrói na Cimeira, alertando para a necessidade de «fazer um desenvolvimento ativo» e não apenas «figurativo». «Estamos num momento em que é preciso repensar a estratégia desta cimeira, tem de ser uma academia globalizada, virada para grandes projetos, que se torna fluída e pragmática na criação de redes e de soluções», reforçou Carlos Robalo Cordeiro.
Com o pensamento já voltado para o futuro, Alexandre Lourenço, presidente do conselho de administração da ULS de Coimbra, mostrou preocupação pela «retirada» dos Estados Unidos da América, uma situação que causa «grande impacto financeiro» e motiva novos investimentos. «Este momento motiva novas formas de pensar o investimento na saúde e, mesmo com menos meios, é preciso que os restantes países se juntem e invistam nesta área».
Mesmo assim, o presidente indica que o momento tecnológico atual é de grande importância. «O desenvolvimento da Inteligência Artificial é um ponto que permite investir no conhecimento. A ULS tem vindo a ser um “campo de teste” para vários projetos e é assim que vemos o futuro, é necessário dar espaço aos empreendedores para continuar a desenvolver competências e soluções para a saúde», rematou o especialista. Dentro destes projetos, Alexandre Lourenço destaca o teste de «algoritmos» ligados à saúde e, ainda, um projeto-piloto para «combater a obesidade infantil que envolve psicólogos, nutricionistas e outros especialistas









