
“99% de doentes com cancro da laringe são fumadores e têm hábitos etílicos”
Abel Fernando Teixeira tem 58 anos e, há 12, um carcinoma obrigou-o a realizar uma laringectomia total, que consiste na remoção da laringe e colocação de um ostoma, no caso uma traqueostomia. Foi uma rouquidão que teimava em não passar que o levou ao médico e ao diagnóstico que ninguém queria ouvir: cancro da laringe.
«O médico optou por operar e eu aceitei», conta o antigo carpinteiro, revelando que a adaptação ao estoma respiratório «foi difícil» para si, mas também para a família, particularmente, para quem está mais perto, porque, as mudanças não se ficam pela forma de comunicar, mas também «a nível da deglutição e mesmo na defecação», como explica a enfermeira Vanessa Anjos, enfermeira especialista que dá apoio aos doentes ostomizados respiratórios da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra.
Ultrapassadas as barreiras iniciais, Abel Fernando Teixeira garante que vai fazendo «uma vida normal». «Tem de se olhar para a frente. A vida continua. É um dia de cada vez. Faço tudo, vou às compras, vou a qualquer lado», refere, ao acrescentar que, mal soube que estava doente e lhe disseram que tinha de deixar de fumar, acatou sem hesitar um segundo. «E não custou nada», refere.
Hoje assinala-se o Dia Mundial do Ostomizado, uma oportunidade para a ULS de Coimbra, através da equipa da Consulta de Enfermagem de Ostomizados Respiratórios alertar para os sinais de alerta e sensibilizar a comunidade em geral para as dificultados que os doentes encontram. «Estas pessoas precisam de ser compreendidas», salientou, sustentando que uma ostomia respiratória tem um impacto a vários níveis, desde o físico ao psicológico.
Vanessa Anjos destacou também que «99% dos doentes com cancro da laringe são fumadores e também têm hábitos etílicos marcados». No caso do consumo de álcool nem sempre é a quantidade, «mas o tipo de bebida» que se ingere, explica, resumindo que, ao nível de prevenção da doença, o que se aconselha é «abolir o tabaco e não beber bebidas alcoólicas».
Depois, há que estar atento aos sinais de alerta - rouquidão e dificuldade em deglutir -e, em caso de alterações ou sintoma, «procurar um médico e pedir ajuda».

«Muitos dos doentes vêm já com dificuldade respiratória acentuada», acrescenta a enfermeira do Serviço de Otorrinolaringologia da ULS de Coimbra, ao destacar a preocupação que o hospital tem em promover o bem-estar emocional dos doentes e o combate ao isolamento social.
Uma das estratégicas para alcançar esses objetivos é a realização de reuniões mensais com laringectomizados, a que se juntam voluntários da Associação Portuguesa de Limitados da Voz, com sede no Porto. Numa abordagem multidisciplinar, participam também médico, enfermeiro, assistente social, nutricionista e terapeuta da fala.
Determinante também no apoio é o Coro de Laringectomizados da ULS de Coimbra, com a participação de doentes, mas também de profissionais de saúde. «Se uma pessoa normal canta, porque é que nós não podemos cantar?», questiona Abel Fernando Teixeira, um dos elementos que dá voz a este projeto, que funciona como terapia e forma de convívio











