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“Estamos a aprender a lidar” com o território abandonado que espera soluções

Centro de Biomassa para a Energia está localizado, há 36 anos, no concelho de Miranda do Corvo

O Centro de Biomassa para a Energia (CBE) nasceu há 36 anos, em Miranda do Corvo, com um objetivo bem definido: identificar tecnologias e soluções para a produção de energia a partir de biomassa. Nos últimos anos, a missão do CBE vai bem além da valorização energética, assumindo-se como um parceiro que acrescenta valor aos produtos da floresta e que olha de outra forma para este resíduo, salienta João Bernardo, presidente do Conselho de Administração.

Centro De Biomassa Para A Energia Fig 1

«Trazer valor à floresta e aos territórios florestais é o grande foco e o ponto de partida para tudo», sublinha João Bernardo, certo de que «a floresta e o território têm essa obrigação de também criar postos de trabalho».

Ao referir a dificuldade em fixar pessoas nos territórios do interior, o presidente do Conselho de Administração do CBE, recorda que, no passado, «todo o território era utilizado».

«As pessoas vinham pastar aqui as cabras, as vacas, vinham recolher as “camas” para os animais, faziam a resinagem, faziam culturas por essas serras fora... era um território vivo, que era partilhado e as pessoas utilizavam como uma floresta extensiva, muitas vezes sem as separações, nem as estradas defensivas e as barreiras defensivas que permitem a não propagação de incêndios», adianta.

Ou seja, resume, «a floresta tornou-se um local onde ninguém entra», porque, lamenta «só ao fim de nove anos é que se corta o eucalipto e ao fim de 30, o pinheiro». «As pessoas nem vão tirar a resina, nem vão apanhar as pinhas, já não fazem nada, praticamente, na floresta, não recolhem a “cama” para os animais», frisa, concluindo que a floresta se tornou «um território completamente abandonado, que não cria emprego».

«Temos um território que não tem ninguém, que serve apenas como um depósito de matéria-prima para depois trabalhar. É esta visão que nós queremos inverter», explica João Bernardo.

E se o CBE foi criado «para aproveitar aquilo que era a produção florestal e para fazer energia, neste momento, quer ser também uma instituição, que, no fundo, ajude a encontrar soluções para o território e para as pessoas que aí vivem», reforça.

E num país em que os incêndios são um flagelo, urge agir, considera João Bernardo, referindo que «os incêndios não são um problema de combate, de meios, mas um problema, essencialmente, de gestão do território».

«Continuamos com um território quase ingovernável», com 97% de propriedade privada, portanto, a ingerência das autoridades nacionais é curta. Não o pode fazer diretamente. Pode fazê-lo através de obrigações, limpeza, etc», salienta, convicto de que «há muito mais para fazer, sobretudo, ao nível da fiscalização».

João Bernardo destaca, por exemplo, a importância que tinham os guardas florestais. «Eram os primeiros agentes a detetar problemas na floresta. Não só os incêndios, mas pragas, outras situações de cortes ilegais, de abusos, de queimadas».

Hoje, há mais tecnologia, mas, na perpetiva do responsável do CBE, ainda não está a ser utilizada como poderia ao nível da prevenção, até porque, acrescenta «é na prevenção que está a solução».

A este propósito, João Bernardo recorda um episódio que remonta aos seus primeiros tempos como diretor-geral da energia e geologia e aconteceu numa missão à Finlândia. Nessa viagem foi-lhe explicado que a aposta passa por «uma gestão muito apertada e uma vigilância muito apertada sobre o território», sem recurso a aviões e um número reduzido de helicópteros.

Ali, o território «produz receita todo ano» e é gerido em comunidade. «O terreno é vigiado, é vivido, a pessoa vive na floresta e eles fazem uma primeira intervenção aos incêndios muito rápida», salienta

«E depois tem as coisas que nós temos cá, mas já a um nível de proficiência e treino que nós não temos: os contrafogos, as máquinas de rasto, rede com estradões...», salienta, ressalvando que a Finlândia tem a maior facilidade de ser um território plano.

Na opinião de João Bernardo, o país viveu a tragédia dos incêndios em 2017 e «de lá para cá não se passou nada». «Continuamos a utilizar as mesmas soluções e a esperar ter efeitos diferentes», lamenta, assumindo que «há muita dificuldade nas pessoas de aceitarem novos instrumentos de ordenamento do território».

O que não tem dúvidas é que «o território não estava preparado para lidar com o abandono. «Nós ainda estamos a aprender como é que lidamos com o território que não foi aquele que nos foi entregue pela natureza, foi aquele que nós transformámos e que não conseguimos gerir», considera João Bernardo.

 

“As pessoas acharam que

o eucalipto era o ouro verde”

opções «A partir dos anos 70/ 80, as pessoas acharam que o eucalipto era o ouro verde em Portugal», critica João Bernardo, ao salientar que a espécie foi surgindo «desde regiões relativamente ricas e interessantes para a produção florestal, como Leiria e Aveiro, até à Cova da Beira».

Resultado: «os eucaliptos levam 40 anos a nascer. Portanto, temos o território plantado de eucaliptos, e de alguns pinheiros também, em sítios onde a rentabilidade e a produção vegetativa é quase zero», lamenta.

Eucaliptos

«Não tem interesse nenhum lá estarem aquelas árvores Estão lá para arder, para serem destruídas. Devia haver coragem, como se fez noutras culturas, como por exemplo na vinha, quando houve a filoxera, de ir lá e cortar aqueles eucaliptos e deixar estar aquilo para plantar batatas ou oliveiras ou outra coisa qualquer que não tem de ser floresta», defende João Bernardo, reforçando que «tem havido uma corrida sem regras de ir plantar coisas onde não faz sentido nenhum, porque nem todo o país é bom para fazer crescer pinheiros e eucaliptos». |

 

Casca Coco Unidade Piloto De Carvão

O Centro de Biomassa para a Energia está a concluir uma unidade-piloto de pirólise para a produção de carvão vegetal a partir de casca de coco em São Tomé e Príncipe. «O reator está a ser terminado em Mira, estão a colocar o refratário e deve embarcar em breve», explica ao dar conta que o CBE tem desenvolvido várias missões em África nos países de Língua Oficial Portuguesa.

«Vimos as oportunidades. Os países também estão num processo de transição energética e achámos que era interessante fazer alguma transferência de conhecimento para lá, até para abrir oportunidade para os empresários de fazerem projetos, de forma a mitigar o risco que estes projectos podiam ter», explica.

João Bernardo destacou também um projeto realizado no âmbito de um protocolo realizado com a Direção-Geral de Energia, relacionado com o aproveitamento das cinzas das centrais. «O que quisemos com este projeto foi encontrar soluções ou desclassificação das cinzas como resíduos para poderem ser integradas num tipo de fertilizante para poder ir para a floresta ou de transformar aquilo em pequenos peletes para colocar no solo e desagregar-se mais lentamente», explica, chamando também a atenção para projetos relacionados com o biochar, «que permite não só fazer a retenção da água, mas também de contaminantes, contribuindo para a melhoria da qualidade dos solos». |

Milhares  de ensaio por ano

O laboratório do Centro de Biomassa para a Energia realiza «milhares de ensaios por ano» e tem uma receita superior a 100 mil euros.

Certificado para fazer testes a peletes, briquetes, cinzas, carvão, entre outros, o laboratório começa a abrir portas a outras valências e mercados, nomeadamente produtos da floresta, como o mel, óleos essenciais das giestas, das urzes e das alfazemas.

Centro De Biomassa Para A Energia Fig 88

«Trabalhamos o nosso maior nicho de mercado, que são os biocombustíveis sólidos. Depois, também fazemos a prestação de serviços na área de biocombustíveis líquidos», salienta também Neuza Alves, funcionária do CBE.

Na lógica de «olhar a floresta como um todo, como uma oportunidade», o Centro de Biomassa para a Energia, em Miranda do Corvo, disponibiliza ferramentas «que ajudam a validar, a unir essas oportunidades», refere João Bernardo.

Centro De Biomassa Para A Energia Fig 78

 

Outubro 2, 2025 . 10:05

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