
Memórias: Congresso Beirão pediu medidas para controlar e aproveitar o Mondego
Catorze anos depois de ter recebido (em 1922) o II Congresso Beirão, Coimbra voltou a ser anfitriã da reunião magna do movimento regionalista com que a Casa das Beiras em Lisboa se propôs contribuir para discutir e fomentar o progresso da região.
Para os quatro dias do VI Congresso Beirão, realizado entre 8 e 11 de julho de 1936, logo após terminarem na cidade as Festas do VI Centenário da morte da Rainha Santa, inscreveram-se mais de quatro centenas de participantes, com numerosas «teses sobre problemas de grande importância para a vida económica e social dos quase dois milhões de portugueses» das Beiras.
A abertura solene do congresso, dia 8 às 22h00 na Câmara Municipal, foi presidida pelo ministro das Obras Públicas, Joaquim Abranches, destacando-se ainda na mesa o governador civil (presidente da comissão organizadora), o reitor da Universidade, o presidente da Câmara de Coimbra, o presidente do Conselho Regional das Beiras, e representantes dos distritos de Aveiro, Castelo Branco, Guarda e Viseu, entre outras individualidades. Uma sessão «muito concorrida», em que se fizeram «importantes e categóricas afirmações de fé regionalista», anotou o Diário de Coimbra, que na qualidade de “órgão do movimento regionalista das Beiras” (ler texto nesta página) acompanhou detalhadamente o evento.
Viseu (1921), Coimbra (1922), Aveiro (1928), Castelo Branco (1929) e Figueira (1932) acolheram primeiros congressos
O congresso incluiu quatro sessões plenárias nos salões da Associação Comercial, durante a manhã e ao final da tarde, e no último dia uma outra sessão, “de montanha”, na visita que os congressistas fizeram à Serra da Lousã, onde trataram de assuntos respeitantes à silvicultura, exploração de florestas e agricultura nas Beiras. Completavam o programa alguns eventos sociais e lúdicos, no Parque da Cidade e na Praia Fluvial, bem como visitas a estabelecimentos assistenciais da Junta Geral do Distrito, com destaque para o hospital--sanatório dos Covões, à Casa dos Pobres e a liceus.
Divididos em áreas temáticas, cada uma com relatores das respetivas atas, os trabalhos contaram com numerosos contributos, uns mais políticos e outros técnicos, em assuntos de dinamização agrícola, comercial e industrial, de assistência e medicina social, de atividade social, administrativa, pedagógica e artística, de turismo, pecuária, cadastro agrícola e aproveitamento dos recursos hídricos da região.
Mereceu especial atenção este último tema, desde logo no discurso inaugural do ministro, ao sublinhar a importância do problema da rega dos campos para o desenvolvimento agrícola do país.
Na segunda sessão do congresso, uma tese do engenheiro Pais Clemente evidenciou a «urgente necessidade de um plano nacional de obras hidráulicas, de regularização dos rios, que tenha em vista a resolução dos problemas de produção e transporte de energia elétrica, a recuperação de terrenos destruídos ou grandemente prejudicados pelas cheias, e o fomento da agricultura pela extensão das terras regadas».
« As condições orográficas do maciço montanhoso das Beiras, os prejuízos que os seus rios causam à economia nacional e a distribuição da população no país, impõem que em um plano nacional de obras hidráulicas se dê primacial destaque à regularização do sistema hidrográfico das Beiras e, muito especialmente, à dos rios Mondego e Zêzere», defendeu.
Propôs ainda o autor a construção de um sistema de barragens, numa antevisão do Plano Geral do Aproveitamento Hidráulico da Bacia do Mondego que começaria a ganhar forma três décadas depois.












