
Avanços na proteção agrícola passam por raios UV-C, “revelam” as videiras
Com a chegada da vindima, começam a recolher-se os produtos de mais um ano de tratamento das vinhas. Se cada produtor tem a sua forma de ação, uma coisa é certa, ninguém quer a sua vinha atacada por pragas ou doenças. Duas delas, o oídio e o míldio, são fúngicas e podem ser tratadas com o uso de luzes ultravioleta de tipo C (UV-C), revela um estudo realizado na Cordinhã, em Cantanhede.
«O oídio e o míldio são dois problemas que afetam regularmente as plantas, principalmente as videiras. Podemos constatar a sua presença através de manchas brancas ou amareladas, que afetam gravemente as plantas, as uvas e o ecossistema das videiras», revela Adérito Machado, vereador da Câmara Municipal de Cantanhede e responsável por este projeto.
Como técnico de análises clínicas, ainda na altura da pandemia de Covid-19, desenvolveu uma forma de «matar bactérias e vírus» utilizando luzes UV-C através de lâmpadas de bloco operatório, que o levaram depois a pensar neste novo projeto. «Basicamente pensei num sistema com as luzes para combater as bactérias nas ambulâncias. Depois evoluí este processo num reservatório de água para gado, onde percebi as suas funcionalidades melhor». Neste caso, o estudo provou que as bactérias que contaminavam a água não se reproduziam e não sobreviviam às condições com UV-C ativo, tornando a água potável, equiparada à água de torneira.
Lâmpadas emissoras de raios UV-C podem ditar um futuro mais biologicamente seguro para as videiras e para o vinho português
Adérito Machado, de forma “simples”, explica o processo e revela o porquê de ser tão eficiente. «Os raios UV-C são raios da luz solar, mas mais agressivos. Normalmente ficam presos na camada de ozono, mas com estas lâmpadas conseguimos replicá-los aqui e, quando utilizados à noite, matam os fungos nocivos e impedem-nos de se replicar. Caso este tratamento fosse efetuado durante o dia, a luz solar normal poderia ser aproveitada pelos vírus para se multiplicarem, mas como durante a noite não têm essa capacidade, estas lâmpadas fazem um trabalho irreversível de forma não invasiva». Os tratamentos são, também, aplicados apenas uma vez por semana e apenas quando as condições o pedem (este ano foram efetuados de março até junho, momentos em que a humidade do ar e a temperatura ajudam na propagação do oídio e do míldio).
A “máquina” desenvolvida chama-se “Violeta” e é apenas um conjunto de oito lâmpadas de UV-C montadas num sistema com rodas. As luzes apontam para a frente, longe da pessoa que empurra o “carro” com cerca de 15 quilogramas, onde a maioria do peso é de um gerador. «Temos um sistema simples e “rudimentar”, mas que oferece resultados importantes», indica o vereador.
Até ao momento foram feitos testes em quatro carreiras de videiras e em cinco videiras singulares, onde o projeto começou. «Há um conjunto de cinco videiras que já tem este tratamento há três anos e o dono revelou-nos que acredita ter ganho produção nesse pequeno complexo. Nesta nova tentativa aumentámos a amostra e conseguimos resultados muito bons». Neste momento a estimativa ronda as 300 videiras tratadas.
O projeto nasceu após a pandemia de Covid, com “experimento” que visou garantir a segurança dentro das ambulâncias
Segundo o dono da vinha onde foram aplicados pela primeira vez estes tratamentos, João Alberto, proprietário da Kompassus (onde se situam as vinhas utilizadas), indica que dificultou o trabalho, de certo modo, a Adérito Machado, apesar de acreditar no projeto. «Quando aceitei esta nova fórmula disponibilizei uma zona que sabia de antemão ser mais propícia a fungos e que dava menos produção. Os resultados que conseguiram são surpreendentes porque o que aquelas vinhas deram, em termos de quantidade e qualidade, é comparável a todo o resto do que produzi», explica.
Apesar destes testes já serem bons indicativos, no próximo ano será realizado tratamento em toda uma vinha, o que dará resultados ainda melhores.
Durante estes anos de testes o resultado final ainda não pode ser transformado em vinho, como revela Magda Silva, responsável do gabinete municipal de apoio ao agricultor da CM Cantanhede. «Ainda não conseguimos que o resultado final das uvas fosse transformado em vinho, mas vamos fazê-lo, esperamos, no próximo ano». Este avanço pode mostrar-se fulcral para mudar a forma de tratar as vinhas para todos os produtores porque, como a especialista indica, os custos são muito mais baratos. «Em termos de investimento é muito menor do que os tratamentos fitofármacos habituais. As pessoas têm alguma resistência a estas alterações, mas acredito que quando acabarmos de provar este sucesso, a troca vai ser rápida e gradual».
Para além de ajudar os produtores, esta troca vem também garantir o sucesso das uvas e do vinho, nos consumidores que, como Magda revela, estão «cada vez mais exigentes», com uma maior atenção ao «biológico», mas antes tem de se garantir um produto garantidamente inalterado.











