
Uma exposição em 1937 alertou os cidadãos para perigos... da guerra química
Na memória coletiva estava ainda bem presente o horror do uso de armas químicas em grande escala na Guerra Mundial de 1914-1918, responsável por mais de um milhão de baixas, entre mortos e feridos. Aqui ao lado, a Espanha era arrasada por sangrentos combates entre republicanos e nacionalistas, numa guerra civil que se estendeu por três anos, de 1936 a 1939. Enquanto isso, o rearmamento a toda a força da Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, deixava antever a iminência de um novo conflito bélico global (a trágica II Guerra Mundial aconteceria entre 1939 e 1945).
Foi este cenário que enquadrou e despertou interesse pela “Exposição Bibliográfica de Material Antigás”, inaugurada na Escola Superior de Farmácia, da Universidade de Coimbra, a 25 de junho de 1937.
«São poucos os aplausos para quem, na hora presente, tomou sobre si o encargo dessa iniciativa, pois a população portuguesa vive na ignorância completa dos perigos da guerra química e há a absoluta necessidade de lhe mostrar todo o seu gravíssimo panorama, educando-a na defesa necessária», publicou o Diário de Coimbra, ao noticiar no dia seguinte a cerimónia de inauguração, que contou com o reitor da Universidade, João Duarte de Oliveira, o comandante da 2.ª Região Militar, general Gomes de Sousa, e o governador civil, Ferreira da Silva.
Exposição foi organizada pela revista "Notícias Farmacêuticas" e Escola Superior de Farmácia da Universidade de Coimbra
Em nome da revista “Notícias Farmacêuticas”, coorganizadora da exposição, Barros e Cunha, professor da Faculdade de Ciências, explicou os propósitos da iniciativa, frisando a necessidade de interessar a generalidade dos cidadãos, e em particular «o farmacêutico pelo papel que pode e deve desempenhar na disseminação de conhecimentos respeitantes à defesa passiva contra ataques químicos e em vários outros aspetos desta guerra – que por “Guerra de boticários” foi conhecida a de 1914-1918 –, onde muitos milhares de homens sentiram os terríveis efeitos dos gases». Preconizou, nesse sentido, que a Universidade passasse a lecionar cursos sobre guerra química.
O director da Escola Superior de Farmácia, Cipriano Diniz, apontou o interesse público do tema, lembrando que «países adiantados e previdentes, desde há muito se estão precavendo contra os agressivos químicos, ensinando e adestrando não só o elemento militar, mas também as populações civis para a sua defesa».
«E nesses países são em geral os farmacêuticos as pessoas indicadas e até obrigadas a prestar os seus serviços em caso de ataque, e sobretudo a possuir nas suas farmácias o material de defesa antigás indispensável», referiu, dando conta da «atividade de relevo produzida» na escola «sobre tão momentosos assuntos» e que os professores não se poupavam a esforços «para difundir e ensinar tudo aquilo que, no seu mister, possa servir a causa pública».
Da «curiosíssima e oportuna» exposição de material antigás, a primeira do género organizada fora de Lisboa, constava diverso «material bibliográfico, muitos e sugestivos gráficos sobre o desenvolvimento da aviação, dos ataques aéreos, guerra química e defesa da população, além de máscaras “Protectus”, “Puretha”, “Degea” e outras de tipos mais antigos».
Patente até final desse mês numa sala anexa à Biblioteca da Escola de Farmácia, a exposição «tem despertado a maior curiosidade na população de Coimbra que ali tem acorrido a ver os diferentes modelos de máscaras e a sugestiva coleção de gráficos da Defesa Nacional que mostra vários aspetos da guerra aero-química», adiantou este jornal, chamando a especial atenção dos leitores para o anúncio publicado na edição de 30 de junho, da «casa H. Vaultier & C.ª, de Lisboa, que expõe as magníficas máscaras “Degea”».










