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Pedro Mota Curto: "Sempre tive uma grande preocupação em formar cidadãos"

Foi diretor em vários estabelecimentos de ensino na Figueira da Foz durante 30 anos e, este ano, despede-se da carreira no ensino como começou: a dar aulas.

Pedro Mota Curto exerceu o cargo de diretor em estabelecimentos de ensino na Figueira da Foz durante quase 30 anos. Começou na escola do Paião e culminou no Agrupamento de Escolas Figueira Mar. Com este ciclo concluído, o responsável faz um balanço positivo do seu percurso, explicando que defendeu sempre uma escola pública para todos

 

Tem a experiência de ser diretor antes e depois da criação dos agrupamentos de escolas. Qual foi o maior desafio?

Pedro Mota Curto Essa mudança foi um desafio considerável porque, em 2003, quando foram formados os agrupamentos, nós estávamos na Escola Infante D. Pedro, tínhamos alunos do 5º ao 9º ano e as coisas decorriam tranquilamente, com todas as vicissitudes de qualquer escola. De repente, entregam-nos Jardins de Infância e escolas do 1º Ciclo, que eu não conhecia, não sabia nada sobre o assunto, porque a minha formação é História. De repente, tenho ali mais 12 escolas que juntaram à minha. De maneira que na equipa tive que ir buscar uma educadora, que foi a Isabel Ferreira e que esteve comigo até hoje. Depois com o tempo, visitando as escolas, falando com os professores, fui aprendendo e inteirando-me. Há 20 anos havia a ideia que a educação universitária era o principal e a mais importante, mas depois começou-se a perceber que o setor da Educação mais importante de todos é o Pré-Escolar e o 1º Ciclo, que é onde se estabelecem as bases todas e se formam as competências e a personalidade das crianças para evoluir como pessoas e cidadãos. Tal como em 2012 quando fui para uma Escola Secundária também foi uma grande aprendizagem. Quando fui para a Bernardino pouco ou nada sabia de cursos profissionais. Neste momento esta escola tem sete cursos e 17 turmas, que é uma coisa quase inédita. Em toda a região da Comunidade Intermunicipal de Coimbra, que são 19 concelhos, a Bernardino Machado é a segunda escola com mais oferta de cursos profissionais. Portanto, logo ali foi um batismo de fogo.

Considera que conseguiu levar o barco a bom porto?

Eu faço um balanço positivo. Depois da liberdade e da democracia, duas das conquistas do 25 de abril foram a Escola Pública e o Serviço Nacional de Saúde. Nós temos dos melhores sistemas públicos de Educação e de Saúde do mundo. Isto é uma evidência. Hoje os desafios são diferentes, mas eu tenho a consciência de que eu fiz a minha parte. Eu lutei toda a vida pela defesa da escola pública e pela defesa e apoio aos mais desfavorecidos, aos alunos com necessidades específicas, aos alunos com menor capacidade económica, aos alunos que não têm apoio familiar, aos que não têm pais ou é como se não tivessem. Portanto, eu nunca vi a escola pública como uma escola elitista, que é só para alguns e que têm que ter média de 20 para serem médicos.

Tentei ajudar os alunos a conseguirem ir o mais longe possível. Se é um aluno que não consegue ter positiva, mas depois concluir o Secundário com média de 12 já é uma grande vitória. Se é um aluno autista que não é autónomo, mas depois já consegue cozinhar, comer sozinho, vestir-se, arranjar um emprego isso já é uma grande vitória. Portanto, eu sempre tive uma grande preocupação em formar cidadãos. O nosso objetivo sempre foi formar pessoas para que sejam cultas, inteligentes, com espírito crítico, com capacidade de ler, de interpretar, de criar, de ter valores e de ter bons princípios. Se conseguirmos formar os jovens, assim teremos depois os adultos. Ninguém dá muita importância à Educação, mas os professores é que formam toda a gente. As escolas é que formam todos os futuros responsáveis pelo país. Lamento a falta de investimento que é dada hoje à Educação.

 

Hoje há muitos ensaios internacionais que dão conta que os smartphones têm muita culpa na alteração dos padrões humanos

Com essa falta de investimento, na sua opinião, qual será o futuro das escolas?

O mundo ocidental está a pagar pela falta de investimento nos sistemas educativos e pela falta de investimento e de apoio e incentivo às ciências sociais. Por isso é que cada vez temos mais guerras, cada vez temos mais massacres, cada vez temos mais o espírito da venda de armas. O desinvestimento na Educação levou a que as pessoas não queriam seguir esta profissão, porque ser professor é ter uma carreira muito mal remunerada. O que é que vai acontecer? Com os professores que vêm do início da década de 70 e 80 a reformarem-se, vai acontecer o que já se passa em escolas de Lisboa ou Algarve em que já há muita falta de professores. Há turmas que estão o ano inteiro sem professores em disciplinas de Inglês, História ou Geografia… Na Figueira ainda não se nota muito, mas penso que também cá vai chegar esse problema.

Falando agora em investimentos, acredito que a criação da sala snoezelen na Escola do Serrado tenha sido uma grande conquista não só para o agrupamento, mas também para a cidade?

No Agrupamento de Escolas Figueira Mar temos 18 professores de educação especial no quadro. Isto deve ser inédito a nível nacional. Eu lutei por isto durante anos e anos e consegui. O professor José Godinho é um deles e foi o mentor da sala snoezelen. Nós temos 210 alunos com necessidades específicas e temos 39 com espectro de autismo. Tratamos todos por igual e tentamos fazer o melhor por todos. Quando começámos a dizer às pessoas que precisávamos de dinheiro para a sala snoezelen, pois os materiais são importados e muito caros, foi fantástica a reação de empresas e das pessoas. Em seis meses conseguimos angariar 20 mil euros, portanto, foi absolutamente histórico. Tivemos também a ajuda da Câmara Municipal e da Junta de Buarcos e S. Julião. O objetivo era abrir a sala no próximo ano letivo, em setembro de 2025, e o que é certo é que conseguimos inaugurar há pouco tempo graças aos professores José Godinho e Júlia Magalhães. Isto foi um dos pontos altos da minha carreira, graças a um trabalho de equipa, pois nada se faz sozinho.

"Nós temos 210 alunos com necessidades específicas e temos 39 com espectro de autismo. Tratamos todos por igual e tentamos fazer o melhor por todos"

Em janeiro o agrupamento decidiu aplicar limitações no uso dos telemóveis nas escolas. Como correu e que resultados verificaram no final deste ano letivo?

Essa questão dos telemóveis é fundamental. Hoje há muitos ensaios internacionais que dão conta que os smartphones têm muita culpa na alteração dos padrões humanos. Os telemóveis os smartphones estão a criar um ser humano diferente. Há dois livros que eu li, que eu recomendo a toda a gente. Um saiu em 2017 ou 2018 que se chama «Fábrica de Cretinos Digitais», escrito por um neurocientista francês. Outro saiu em 2024, escrito por um professor universitário americano, e que se chama «Geração Ansiosa». Está a passar o deslumbramento inicial que se teve com os smartphones, que era termos o mundo no bolso, sabíamos tudo, tínhamos acesso a tudo, isto era uma maravilha e veja só o que ocorreu. Os smartphones estão a formar um ser humano diferente, mais idiota, mais limitado, mais incapaz de raciocinar, de socializar, de criar empatia com os outros. Os smartphones são importantes, são necessários. A informática e os computadores também são. Mas tem que ser com parcimónia e é apenas uma ferramenta. Não é a nossa vida, não pode substituir a nossa vida. Pensei que as restrições fossem causar confusão, mas acabou por ter uma reação positiva de toda a gente. Foi um sucesso absoluto.

Termina este ciclo com o sentimento de dever cumprido?

Foram quase 30 anos como diretor, foi um trabalho ao qual me dediquei e fiz tudo o que estava ao meu alcance. Por isso, saio com a satisfação de dever cumprido. As obras da Bernardino Machado são o culminar da minha carreira com a oferta de uma escola extraordinária à Figueira da Foz. Apostámos muito na área industrial, mas há outros cursos profissionais e não só. Também funcionam cursos científico-humanísticos, nomeadamente, o Curso de Ciências e Tecnologia e o Curso de Línguas e Humanidades. E termos conseguido meter a Bernardino Machado dentro da Infante D. Pedro sem o mínimo problema foi um grande feito. Agora até parece que foi fácil, mas claro que foi o resultado de um trabalho coletivo.

O que se segue no seu percurso?

Falta-me um ano para a minha aposentação, por isso, vou terminar como comecei: a dar aulas. Não será de Francês, mas sim de História.

E o que espera da nova direção do Agrupamento Figueira Mar?

O agrupamento funciona bem, a “máquina” já está montada. De qualquer forma, vou estar à disposição para o que for necessário. Eu desejo as maiores felicidades e que mantenham o agrupamento ali num bom rumo. A nova direção tem duas opções: mantém as coisas como estão ou vai fazer alterações à sua maneira, o que está no seu pleno direito. Aliás, se calhar até é bom que haja uma renovação, com ideias novas, para fazer coisas que eu não fiz

Agosto 25, 2025 . 20:50

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