
Via Verde do AVC deu resposta a mais de seis mil doentes na Região Centro
Uma em cada quatro pessoas vai sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Os dados são da Organização Mundial de Saúde e apresentam uma doença avassaladora, que representa a principal causa de morte em Portugal. Combater este verdadeiro flagelo foi o objetivo que norteou a criação da Rede Regional da Via Verde do AVC. Um projeto liderado pelos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), de “braço dado” com outros sete hospitais da região – Figueira da Foz, Aveiro, Viseu, Leiria, Covilhã, Guarda e Castelo Branco – que começou a funcionar no dia 1 de agosto de 2015. Amanhã cumpre-se uma década sobre a operacionalização desta rede, que conjuga as melhores respostas e tratamentos diferenciados, com uma gestão milimétrica do tempo, essencial no tratamento do AVC. Os resultados atestam o sucesso deste modelo organizacional, único no país e também o único reconhecido pela Sociedade Europeia de AVC. Gustavo Santo, coordenador da Rede Regional da Via Verde do AVC, João Salgado Freitas, coordenador da Unidade de AVC dos HUC – ULS Coimbra, e Egídio Machado, coordenador do serviço de Neurorradiologia Regional e da Neurorradiologia de Intervenção, deram ontem a conhecer alguns dados que atestam a relevância desta resposta articulada e do seu impacto em termos sociais e de saúde pública.
Os números não deixam margem para dúvidas. «Nestes 10 anos, internámos mais de 6.000 pessoas», 60% das quais são de fora de Coimbra, encaminhadas pelos sete hospitais que integram a rede. «Vêm cá e depois de fazerem o tratamento são internadas para estabilização e regressam aos hospitais de origem», explica o coordenador da Unidade de AVC.
É ali que tudo ou quase tudo acontece, com uma equipa de 10 neurocirurgiões que «garantem, resposta 24 sobre 24 horas, todos os dias do ano», sublinha Gustavo Santo, coordenador da Rede. Uma resposta local e presencial, mas também à distância, com «o apoio da telemedicina». Referência incontornável para a equipa de Neurorradiologia de Intervenção, coordenada por Egídio Machado, que assume um papel essencial no processo, uma vez que são estes profissionais – atualmente uma equipa de quatro, em perspetivas de crescer para cinco – que garantem o «tratamento altamente revolucionário» que faz a diferença.
A Unidade de AVC dos HUC dispõe de oito camas e conta com o apoio de outras 20, do Serviço de Neurologia
Um tratamento que, sem entrarmos em pormenores clínicos, se pode resumir a uma intervenção, com «micro cateteres» e outro tipo de material específico, que permite «aceder à zona do cérebro onde está alojado o “trombo” (coágulo) e proceder à remoção dessa “oclusão”, restabelecendo a “recanalização” da zona “esquémia”. «Só assim é que conseguimos garantir que a pessoa que sofreu o AVC tenha as melhores condições para que possa recuperar e ficar com uma independência funcional», explicou Egídio Machado.
Foi este «tratamento altamente revolucionário», cujo advento data de 1 de janeiro de 2015, que ditou esta pequena grande revolução na organização e na gestão dos serviços. Uma mudança necessária, na medida em que, em toda a Região Centro, os HUC eram o único hospital «com capacidade para oferecer este tratamento», fundamental para o «tratamento de doentes com AVC graves», adianta Gustavo Santo.
«Era nossa obrigação, na medida em que tínhamos a possibilidade de oferecer este tratamento de que os outros hospitais não dispunham», lembra o responsável, que reforça a importância fundamental do tempo quando se trata de AVC. «Quanto mais depressa for tratado, melhores são os resultados». Isso levou ao desenho deste modelo regional, assente na articulação entre unidades hospitalares e no recurso à telemedicina.
Significa que, 24 sobre 24 horas, a equipa está disponível e pronta a analisar a situação do doente, depois deste ter feito os primeiros exames. Imagens analisadas pela equipa, caso a caso, e que permitem definir a estratégia a seguir, que tanto pode passar pela transferência do doente para Coimbra, caso seja necessário ser submetido ao tratamento de neurorradiologia de intervenção, ou beneficiar de outro tipo de tratamentos, disponibilizados pelas diferentes unidades de saúde. Tudo isto feito no mais curto espaço de tempo, o que representa «poucos minutos», através de teleconsulta, com uma «equipa altamente diferenciada».
Em média, de acordo com Gustavo Santo, estão a ser feitas 1.500 teleconsultas por ano. Ao número de teleconsultas importa acrescentar 40%, que representa a média de doentes da zona de Coimbra, indiciados com AVC que são assistidos na unidade.
50% dos doentes com recuperação sem sequelas
Dos mais de seis mil doentes que ao longo destes 10 anos foram assistidos na unidade de AVC dos HUC, cerca de 95% representam uma “recanalização útil”, ou seja, o trombo foi removido e a situação de “isqueme” revertida. A explicação é dada pelo coordenador da Neurorradiologia de Intervenção. Egídio Machado recorda que a equipa se preparou e quando «surgiu a evidência científica» da superioridade dos benefícios desta terapêutica, a equipa imediatamente assegurou uma escala, «a primeira no país, garantindo uma cobertura de 24 horas/dia».
São quatro profissionais, altamente especializados e exímios na capacidade de dar resposta a qualquer que seja a localização da oclusão cerebral. Fazem cerca de 620 intervenções (remoção do trombo) desta natureza por ano. Cada intervenção tem uma duração aproximada de 30 minutos e a “recanalização” útil, ou seja a «revascularização do território» atingido «anda à volta dos 95%». Uma percentagem «muito alta, o que significa que o desempenho da Neurorradiologia de Intervenção e os materiais que utilizamos são muito eficazes no tratamento destes doenças», sublinha Egídio Machado.
Já relativamente aos índices de recuperação, «mais de 50% dos doentes ficou independente, sem sequelas relevantes», adianta João Sargento Freitas, que realça o facto de 50% dos doentes em idade ativa que sofreram um AVC e foram tratados através da rede recuperaram e «conseguiram voltar ao trabalho».
Dados que atestam a mudança de paradigma e a evolução que se tem vindo a registar no tratamento do AVC, de que a Rede Regional da Via Verde é um caso exemplar. «Historicamente os doentes que sofriam um AVC morriam ou ficavam incapazes», recorda o coordenador da Unidade. De resto, disse ainda, os dados da história do AVC apontavam para um universo de recuperação a rondar os 10 a 15%, o que comparado com os atuais 50% tem um impacto social muito significativo.
Para continuar a ler este artigo
nosso assinante:
assinante:









