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Avós e netos descobrem o canto e o encanto dos pássaros

TAGV convidou visitantes a saírem das quatro paredes do teatro e descobrirem a natureza, numa viagem dramatizada. Ciclo de três caminhadas terminou no Jardim da Sereia

Tem nome de pássaro e foi de e com pássaros que Ricardo Falcão alimentou a terceira e última caminhada performativa do ciclo promovido pelo Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV). Um desafio que juntou avós e netos, num percurso pelo Jardim da Sereia, o espaço natural mais próximo, onde se encontram os vizinhos mais antigos, com milhões de anos: os pássaros, cujo chilrear se sobrepõe ao ruído das viaturas e fez os “viajantes” sentirem-se mais próximo da natureza, como outrora acontecia com os monges de Santa Cruz.

Marília Ramos de Carvalho foi uma das entusiastas do evento. Soube da proposta e convidou os netos a participarem nesta jornada, que decorreu ontem, ao final da manhã. Miguel Andrade, de 6 anos, «aceitou o reptum» para comemorar o Dia dos Avós de uma forma diferente. A avó conhece bem o Jardim da Sereia, mas tinha a certeza de que lhe iria oferecer «uma nova perspetiva». Os seus desejos não foram gorados e até o Miguel, inicialmente tímido, questionou se a enorme raiz de uma árvore, transformada no “trono dos pássaros” também era para «pôr no saco», onde os caminhantes foram reunindo adereços para a sua obra.

Maria Olinda Brandão, acompanhada pelo neto, Francisco, de 10 anos, soube pela filha do evento e não se fez rogada. «Gosto de caminhar, só não gosto deste calor», confessava, expectante que no jardim estivesse mais fresco, o que aconteceu. Entusiasmado, o neto lembrava boas memórias do Jardim Botânico, convicto que a Sereia também reservava surpresas de encantar.

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Ricardo Falcão criou os diferentes “instrumentos” de madeira, que ganharam vida e asas nas mãos de avós e netos

E foi isso que aconteceu, com Ricardo Falcão a dar o mote para uma manhã de descobertas, numa viagem pela natureza, pela história e pela cultura. Com o mapa na mão, os pouco mais de uma dezena de participantes deram início ao périplo, numa visita feita no sentido oposto ao do movimento do relógio. Quiçá para «parar o tempo» ou para prolongar a escassez dos 60 minutos previstos. Uma viagem que levou a refletir sobre o crescimento das cidades e a sua relação com a natureza, dando destaque aos pássaros. «Talvez os habitantes mais antigos» deste ecossistema. Pássaros que já existiam há 150 milhões de anos, «no tempo dos dinossauros», esclareceu, e hoje «são os animais que mais convivem connosco nas cidades. Aparecem nas nossas varandas, chaminés, telhados», disse, convidando os participantes a ouvir «os vizinhos mais antigos do TAGV».

Mas outros sentidos mereceram ser apurados. «Podem apanhar folhas, sementes, paus, pedras, que sirvam para fazer os olhos, as asas ou o bico dos pássaros», desafiou Ricardo Falcão, desencadeando um atenta busca.

«A mata-jardim tem o poder de nos fazer abstrair do ruído da cidade», disse, chamando a atenção para o chilrear dos pássaros e a cantoria das cigarras. Uma primeira paragem, junto a uma velha raiz, para à semelhança da Grécia clássica, evocar a arte dos peripatéticos e dar mais uma pequena lição, desta feita sobre a “Conferência dos Pássaros”, um poema persa, da autoria de Farid ud-Din Attar. Espaço para outras lições, mais atuais, sobre aplicações que permitem identificar automaticamente o som dos pássaros ou as espécies de árvores. Já junto à fonte que dá nome ao jardim, mais uma incursão na cultura grega, para esclarecer a figura do Tritão. Logo a seguir, outra figura mítica, o trágico Tristão, cavaleiro da Távola Redonda, e a sua amada Isolda.

Junto ao lago, Ricardo Falcão chamou a atenção para o que também pode ser olhado como um pássaro, uma escultura aérea da Rui Chafes. Outras se seguem, mais “térreas”. Um anel que rapidamente se transformou numa «Távola redonda», onde os “cavaleiros” se sentam e se preparam para construir o seu pássaro. Ou melhor, para descobrir, primeiro, um instrumento musical feito com um pedaço de madeira, um furo e um parafuso roscado. Parece irreal, mas os veios da madeira, devidamente sintonizados, ganham vida e imitam o chilrear das aves, numa verdadeira sinfonia, que Ricardo Falcão acompanhou à viola, depois de recorrer à flauta. «É impressionante!», dizia uma avó.

Os pedaços de madeira já tinham vida. Faltavam os olhos, o bico, as asas e as patitas para serem um verdadeiro pássaro. Tarefa que terminou no TAGV, com a opção de ver um filme de animação.

Ciclo de caminhadas vai regressar na Primavera

Sílvio Santos, diretor do TAGV, participou o derradeiro “Arredores – Arte Peripatética”, que convida a «sair para fora das paredes do auditório» e descobrir os trilhos artísticos que se desenham pela cidade. «Coimbra tem tantos espaços bons», afirmou, garantindo que para o ano as caminhadas dramatizadas regressam, «no início da primavera». Foram três as narrativas que sustentaram os passeios desta edição de estreia, que contemplaram o Observatório, o Jardim Botânico e o Jardim da Sereia e incluíram por exemplo, uma paragem para colher e comer laranjas ou um almoço partilhado, lembra o diretor, para quem este projeto encerra um potencial enorme, na ligação aos locais e à comunidade. «Para o ano queremos fazer mais», diz.

Julho 27, 2025 . 07:45

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