
“Roseiral” de pessoas fez “desaparecer” as ruas na procissão da Rainha Santa
Com milhares de devotos à porta do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova a procissão da Rainha Santa Isabel, padroeira da cidade de Coimbra, começava a ganhar forma. Ainda antes do andor sair da sua “casa” já as emoções subiam à flor da pele, e muitos choravam em ansiedade enquanto esperavam o “arrancar” do momento.
Perto da escadaria do mosteiro, encontramos alguns devotos que se preparam para ouvir a missa. «Este é um momento que significa muito para todos nós, aqui na cidade» indicam muitos dos fiéis que esperam o começo. Duas estudantes, das várias que se encontravam junto do mosteiro, mencionam uma amizade que as acabou por fazer encontrar na procissão regularmente. «Há alguns anos que vamos sempre juntas a esta procissão. Acabamos sempre por nos encontrar aqui», As alunas, que são de Coimbra, referem ainda que lhes é «ainda mais especial» principalmente em 2025 pois coincide com «o último ano do curso».
Com uma história especial, e uma ligação que começou cedo e durará para sempre, Margarete Ferreira contou ao Diário de Coimbra a importância da Procissão da Rainha Santa Isabel.
"Há alguns anos que vamos sempre juntas a esta procissão. Acabamos sempre por nos encontrar aqui"
«Este é um momento de oração, de glória e de honra. Quando tinha três anos sofri um acidente muito grave, um atropelamento, e a minha mãe fez uma promessa que se cumpriu. Desde aí vim todos os anos com ela, até à minha mãe falecer, mas continuo sempre a vir, agora com os meus filhos», explica.
Além do “milagre” efetuado pela sua saúde, Margarete refere que prometeu continuar a visitar a procissão caso «entrasse na faculdade», sonho que também se cumpriu. Margarete Ferreira vive, agora, em Lisboa, mas regressa sempre, para ensinar aos filhos que «não é por estarmos longe que deixamos de cumprir as nossas promessas», um dos valores que deseja incutir nos seus filhos.
Com a missa já a decorrer, foram relembrados os problemas da atualidade e a necessidade de uma rápida resolução que deve «partir do interior e não da revolta», mensagem que foi explicada pelo padre Manuel Carvalheiro.
Já no final da homilia, Ariana Duarte, aluna que se prepara para concluir o 12º ano, salta à atenção pelo seu traje que “recria” a imagem da rainha padroeira da cidade. «Eu admiro muito a Rainha Santa e este ano estou assim vestida por algumas razões. Primeiro que tudo porque quero muito entrar na faculdade, e fiz essa promessa, e também porque estas roupas foram pedidas pela minha avó, então ganham um significado ainda mais especial», conta a jovem.
Ariana é de Coimbra e esta foi apenas a segunda vez que assistiu à procissão, desta vez, como “agente ativo”. «A minha mãe costumava vir quando era mais nova. Eu vim ver pela primeira no ano passado e, este ano, venho participar».
"Eu admiro muito a Rainha Santa e este ano estou assim vestida por algumas razões"
Já em movimento, nas janelas, alguns turistas curiosos tiram fotografias e questionam a solenidade da procissão. Apesar do motivo ser bastante claro: o andor da Rainha tem cerca de mil quilogramas e está adornado por um verdadeiro roseiral, três mil flores, portanto não passa despercebido. Mesmo assim, a população de Coimbra acaba por explicar (o melhor possível) o simbolismo da procissão enquanto, aos poucos, enche todas as ruas desde a zona da Confraria da Rainha Santa Isabel até à Ponte de Santa Clara, todas as ruas estiveram cheias.
Olhando para os lados da Torre da Universidade, era possível perceber que existiam pessoas a observar a cerimónia nas casas e, ainda, na Couraça de Lisboa.

Já no final da ponte, e ainda antes de lançado o fogo de artifício, o padre Manuel Carvalheiro discursou perante os fiéis e curiosos que acompanhavam a procissão.
Certo de que a sua mensagem se liga com os tempos atuais e com os valores que pautam a Rainha Santa Isabel, o momento solene contou com uma reflexão sobre o passado, presente e futuro. «Nesta noite, ao ver junto de vós esta numerosa multidão, vejo a força da paz que podemos construir, pois ela também depende de nós» indicou o padre.
Com uma visão abrangente dos dilemas que assombram o mundo atual, Manuel Carvalheiro não se mostrou indiferente e explicou que, sentido o «coração dos fiéis» e o seu próprio, entendia a necessidade de «fazer a paz». Este clamor repetiu-se, através de uma diversidade de temas como a família, nas relações interpessoais e no trabalho, através da «construção de vínculos de paz»; no espaço público, na comunicação e nas «ferramentas tecnológicas», destacando os espaços de interação digital – as redes sociais – onde as mensagens se podem perder e propagar o ódio em vez da «boa convivência», da «tolerância» e, sobretudo, do respeito; e, com um olhar atento aos desenvolvimentos e evoluções das ferramentas de cariz tecnológico, reforçou a importância de manter a inteligência artificial como um «instrumento de construção» dos ideais corretos e não como uma forma de «distorcer da verdade».
No seio da sua mensagem esteve, ainda, um grande louvor à Rainha Santa, cujo trabalho junto dos menos favorecidos deve ser relembrado e aclamado por todos. «É belo perceber que mesmo antes da vossa partida deste mundo, já a vossa santidade era tão nítida e se afirmava claramente», explicou o clérigo, ao mencionar a ajuda aos feridos em batalha, o seu trabalho incansável ao tentar impedir vários conflitos bélicos, a construção de edifícios de apoio a doentes e carenciados, entre muitas outras ações que elevaram o cariz de Isabel de Aragão a Santa.
Ainda antes de terminar a sua aclamação aos fiéis, o padre deixou um pedido: «que nenhum de nós regresse a casa esta noite sem um propósito concreto de paz e Santa Isabel, nossa excelsa padroeira, nos conceda a sua bênção».











