
Carlos Antunes: “Ambição tem de ser ainda maior”
A Bienal é já uma tradição cultural em Coimbra e, em análise no panorama internacional, tem especificidades únicas que não se encontram em qualquer lado do mundo. O trabalho de curadoria é pessoal, mas não tem como objetivo diferenciar-se das outras mostras portuguesas, porém, distingue-se delas.
Em conversa com Carlos Antunes, arquiteto e diretor-geral da Bienal Anozero, foi definido um balanço que retrata não apenas a “logística”, mas, também, a vertente humana da exposição. «Foram cerca de 15 mil pessoas que passaram pelo Mosteiro. Em toda a honestidade, porém, se passassem apenas duas pessoas e se sentissem mudadas ou, de certo modo, afetadas, por esta mostra já seria positivo» indica. Porém, afirma ainda ser um pessimista. «Nestas coisas eu sou muito pessimista. Ainda não chegámos aos números que gostava e talvez nunca aconteça porque talvez vá sempre aumentando o número na minha cabeça. Mas acho que é mesmo assim, a ambição tem de ser cada vez maior» refere.
Para Carlos Antunes, Coimbra ainda está no início de uma «Bienal ambiciosa» pois, no panorama internacional, as bienais de relevo têm «50, 70, 100 anos» e isso só acontece com continuidade. «Estamos a fazer o nosso caminho, um caminho que não nos desilude».
Arte contemporânea e o público
Com uma aposta de curadoria que se pretende impactante e especial, o diretor reflete nos resultados encontrados, no que toca à receção do público. «A arte contemporânea é sempre um elemento difícil como público. Ela ousa trilhar caminhos que não são os da facilidade, tornam-se difíceis de acompanhar» e, sendo complexos, acaba por ser «surpreendente» a reação dos visitantes, que se comprometeram a entender e a pensar o mundo através das visões de Janet Cardiff e George Bures Miller.
O resultado impactante no público foi, de certo modo, confirmado pelo Diário de Coimbra que, ao chegar ao Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, encontrou um jovem que entrou de forma «espavorida» pela exposição, de bicicleta, pois visitou uma vez a mostra e quis regressar para repetir toda a experiência, tendo percorrido uma grande distância e subido até ao Mosteiro apenas para reapreciar as obras expostas.
A Bienal termina hoje, às 19h00, com uma sessão com os três parceiros organizadores.

A arte e a cultura em Portugal e no mundo
«Os mais novos não têm muito interesse em certas apostas de arte, e isso assusta. Mas é preciso que a geração mais velha assuma as culpas e faça um trabalho para repor esse interesse nos mais novos».
Foi com este pensamento em questão que Carlos Antunes comentou a falta de investimento na cultura como um problema «enorme» e que constitui uma ameaça para os mais jovens, mas não para os artistas. «Quem cria arte vê nestes momentos inspiração, não é problemático, é desafiante e interessante», indica.
«Há uns tempos tive uma conversa com um jovem que mencionou não ter interesse pela arte, pela cultura, pelos livros. Isso preocupa-me. Preocupa-me que exista alguém que não se permite tocar pela beleza e pela expressão de conexão mais “absoluta” com o mundo» contou o diretor.
Este «desinteresse» é, para Carlos Antunes, um reflexo direto do desinvestimento na cultura que criou uma lacuna de relevo entre as aplicações reais e sociais da arte, e da cultura como um todo. «Vamos sofrer as implicações reais deste desinvestimento num futuro próximo. Aliás, olhando para a circunstância política do mundo, já estamos a senti-lo».
Sessão final da Bienal Anozero
Hoje, até às 19h00, será a última oportunidade de se visitar a mostra artística no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. No final do dia, Universidade, Câmara Municipal e Círculo de Artes Plásticas de Coimbra encerram a exposição.











