É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma
A frase de Don Fabrizio, no romance O Leopardo, sintetiza com precisão desconcertante o espírito de uma época que se pretende mudar apenas para que se conservem os costumes. “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma” serve como senha política para elites que, sentindo o chão tremer, ensaiam gestos de renovação — novos rostos, novos slogans, novos discursos — sem nunca tocar no essencial: os privilégios, as hierarquias, os pactos de poder. Setenta e cinco anos depois do pós-guerra que fundou o eixo-democrático do Ocidente, os seus protagonistas políticos parecem perdidos entre o receio do colapso e a tentação do simulacro. Joe Biden, com 82 anos, tentou a reeleição; Donald Trump, aos 78, foi em janeiro empossado. Emmanuel Macron caminha para o fim do mandato em 2027, sem deixar sucessor carismático, longe da aura de Mitterrand. Em setembro, o Reino Unido viu Keir Starmer chegar ao poder, mas sem grande entusiasmo popular — uma vitória da fadiga, não da esperança. Na Alemanha, Friedrich Merz substituiu Scholz num gesto de rotatividade que parece mais cosmética do que estrutural. E na Polónia, esta semana, Karol Nawrocki lidera um governo que se anuncia de mudança, mas cujos alicerces ideológicos causam alguma preocupação.
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