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Histórias de um bairro a quem chamaram “Bife”

Perto de oito dezenas de antigos moradores juntaram-se em almoço recordando os tempos em que se “vivia e convivia” na rua

Oito anos depois do primeiro encontro, os moradores do chamado “Bairro do Bife” – Telegrafia Sem Fios (TSF) voltaram ao convívio, partilhando à mesa as histórias de um bairro que vivia e convivia na rua, num tempo em que as tecnologias não tomavam conta do dia a dia dos moradores.

Se para muitos foi um reencontro em relação ao primeiro almoço-convívio, realizado em 2017, para outros foi um verdadeiro regresso ao passado e ao contacto com quem já não se via há décadas.

«Já ganhei o dia, vi pessoas que já não via há 50 anos», revelou José Carlos, que se considera «padrinho» do Bairro do Bife.

José Carlos já não reside no bairro localizado na colina de Montes Claros, mas foi lá que passou mais de 30 anos da sua vida.

A si se deve a curiosa designação de “Bife” para nome de um bairro que também era chamado de TSF, por ali ter existido um posto de rádio do Exército.

«As senhorinhas do Trianon e da Rua Nicolau Chanterene diziam que éramos uns coitadinhos, tão magrinhos, eu virei-me para elas e disse “nós comemos todos muito bem, bife ao almoço e ao jantar”, ao que elas disseram que éramos do “Bairro do Bife”».

E o nome ficou.

Em dia de recordar memórias, José Carlos admitiu como eram «malandros», capazes de algumas partidas a quem ia passando.

«Colávamos moedas no chão, quem passavam queria apanhar e não conseguia», exemplificou, destacando uma coisa que considera «muito importante»: «não havia distinção de idades» e todos conviviam uns com os outros.

No Bairro TSF vivia muita gente, mas hoje, dos que conviviam então, já poucos lá residem.

«Neste momento estão a viver lá seis pessoas», contabiliza Luís Loio, um dos organizadores do encontro que pretendeu «juntar várias gerações e recordar histórias».

Américo Coelho, que ontem foi mais um dos participantes dos perto de 80 convivas que se juntaram na Tertúlia d’Eventos, é um dos moradores resistentes, que não arreda pé do seu bairro, onde vive há 73 anos.

«O bairro hoje não é como era antigamente», conta, com saudosismo, o morador, recordando que então «todos viviam e conviviam na rua».

«Dificilmente há o companheirismo e a familiaridade que se vivia na altura, porque hoje a vida é muito diferente, as motivações são diferentes, na altura só havia dois canais e as pessoas juntavam-se na rua», recorda.

De facto, hoje não é assim no atual bairro, mas se no então “Bairro do Bife” existiam laços de amizade a unir os moradores, os moradores da altura, residentes agora noutras paragens, mantêm o espírito e a união, pelo menos nos convívios que vão sendo promovidos.

E ontem foi exemplo disso mesmo.

 

Maio 11, 2025 . 12:15

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