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As obras de «A Fábrica das Sombras»

Até 5 de julho, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, pode visitar a exposição «A Fábrica das Sombras», apresentada no âmbito do Anozero’25 Solo Show. A mostra propõe um percurso imersivo pelo universo sensorial de Janet Cardiff & George Bures Miller, dois dos mais influentes artistas contemporâneos no campo da arte sonora e multimédia.

Reconhecidos internacionalmente pelas suas instalações site-specific e pelas experiências áudio e vídeo que criam, os artistas — que vivem e trabalham no Canadá — apresentam 13 obras que ocupam e transformam o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, desafiando a perceção do espaço e ativando novas camadas de escuta e interpretação.

A exposição pode ser visitada de quarta a domingo, das 11h00 às 19h00, com entrada livre. Esta semana, o Programa Educativo Anozero Solo Show’25 propõe dois encontros com o público — conversa/partilha sobre «Poesia sonora e outros sons», com Luís Pedro Madeira no dia 9 de maio, sexta-feira, e visita com a equipa de mediação, no sábado, 10 de maio, também às 16h. O workshop «Artistas, coletivos e territórios», com Marco Paiva foi adiado para 5 de julho. O custo desta formação é de 5,00 euros, com inscrição em bit.ly/Anozero25ProgramaEducativo.

Semanalmente, destacamos uma das obras que compõem «A Fábrica das Sombras» — num convite contínuo à descoberta desta exposição única.

Newspaper Poems, 2002–2003

Janet Cardiff

Inicia-se instável o século XXI. No rescaldo do 11 de setembro,  dão-se mudanças na perceção de segurança global, e intervenções militares no Médio Oriente são desculpadas numa «Guerra ao Terrorismo». A presidência de George W. Bush impele a protestos e à polarização das massas, por suspeitas dos interesses económicos e geopolíticos da Casa Branca.

A meias com a fragilidade e a descrença globais, Janet Cardiff reúne artigos acerca do conflito publicados no International Herald Tribune, a partir dos quais desenha dípticos-poemas, fruto de colagens surrealistas. Sim, é possível poetizar a guerra. No título, está uma provocação perante o horror desta realidade. Entenda-se aqui tudo o que na poesia cabe — se as primeiras páginas correspondem a combinações lúdicas e dadaístas de palavras, as páginas interiores, presas à parede e encobertas caso não tocadas, colocam-nas num contexto crítico, revelando a manchete original e expondo o lado sombrio da situação. Perante a dicotomia de dois lados que se comentam mutuamente, entendam-se os ecos: a dúbia transparência das intenções de Bush e dos comunicados dos média.

Ilumina-se o gesto dadá, questionando o sentido da arte e da realidade, reação à violência e à irracionalidade da guerra. Entre veracidade e ficção, severidade e ironia, Newspaper Poems tem tanto de presságio como de matriz das histórias do mundo. Fica a nota sobre o poder transcendente das palavras: elas podem transformar a compreensão do quotidiano e da memória, e assim criar um novo real.

 

 

Desde a sua fundação em 2015, o Anozero — Bienal de Coimbra tem afirmado um modelo único de colaboração entre o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, a Câmara Municipal e a Universidade de Coimbra, trazendo à cidade exposições e artistas que desafiam as formas tradicionais de pensar, fazer e experienciar arte.

Maio 9, 2025 . 09:09

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