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Real Confraria da Cabra Velha pede espaço para a sede

Capítulo simples assinalou o 20.º aniversário, com apenas uma entronização, sem oração de sapiência e com um convite à reflexão sobre o presente e o futuro

«Juro defender, promover e divulgar a carne de cabra velha e os pratos que lhe estão associados, chanfana, sopa de casamento, negalhos e chispe, como característicos de Miranda do Corvo e como seus pratos de eleição, respeitando na íntegra a confeção própria do concelho». Palavras proferidas pelo Real Decano, Rui Francisco, e repetidas pela professora Isabel Farinha, que ontem foi entronizada pela Real Confraria da Cabra Velha. Uma única entronização, que marcou um capítulo «simples», que pretendeu ser um espaço de reflexão, sobretudo interna, «sobre o presente e o futuro».

«De que nos vale ter muitos confrades se não participam nas iniciativas?», questionou Rui Francisco, que assumiu a direção da Real Confraria em fevereiro e entende que este é o momento para refletir, no sentido de «potenciar a participação dos confrades», primeiro nas iniciativas da Confraria da Cabra Velha e, depois, nos eventos das restantes confrarias. O objetivo é assegurar o maior empenho «na promoção dos nossos pratos», iguarias que definem «a identidade do povo mirandense», que têm um «grande potencial» na atração de visitantes, na promoção turística do território e «grande impacto na economia local».

O Real Decano fez um resenha histórica dos diferentes pratos, colocando o Mosteiro de Semide como centro da criação da chanfana, com as monjas a confecionarem a carne de cabra, que recebiam dos rendeiros, em vinho, assada em caçoilas, que conservavam nas caves. Um prato que se espalhou pela região, desde a Bairrada ao Baixo Mondego, «num tempo em que não havia internet», graças aos romeiros que, explicou, demandavam o Santuário do Senhor da Serra, em agosto, e, apreciadores da iguaria, pediam a receita, que passaram a confecionar. Já os negalhos, são fruto «da fome e da miséria», que ditou o aproveitamento de toda a cabra, inclusive das tripas. Quanto à sopa de casamento, «prato que só existe em Miranda do Corvo», é, também, o sinal do aproveitamento integral que, no dia a seguir ao casamento, onde a chanfana era obrigatória, se preparava, juntando pão e couves ao molho e aos “farrapos” de carne que restavam.

Ciente do importante papel que a Confraria tem desempenhado nestes 20 anos, o Real Decano salientou o «apoio fundamental» do Município à sua atividade «para promover estas iguarias a nível nacional», mas ousou ir mais longe e pediu um espaço para a sua instalação. Um local onde «os confrades possam reunir e guardar o seu já vasto espólio», disse, fazendo notar que, «até ao final do mandato» ainda há tempo para o atual executivo dar uma resposta, deixando o recado à vice-presidente, presente na sessão. «Se não acontecer agora», Rui Francisco deixou o “encargo” ao «próximo presidente da Câmara – que se encontra nesta sala», disse, referindo-se aos candidatos do PS e do PSD que participaram na cerimónia, realizada na Casa das Artes, garantindo «toda a colaboração da Confraria ao Município».

Coube ao padre Quirino São Paulo proceder à bênção das insígnias, numa cerimónia onde João Paulo Fernandes, presidente da Junta de Miranda do Corvo, e Fernando Araújo, presidente da Assembleia Municipal – que também celebrou ontem o seu aniversário – fizeram a elegia das iguarias locais e dos valores da partilha e da amizade. Marilene Rodrigues, vice-presidente da Câmara referiu-se particularmente à Semana Gastronómica Sabores da Chan­fa­na, que agora terminou, como «um tributo ao património cultural imaterial», que se mantém vivo «graças ao contributo de toda a comunidade». «Promover, valorizar o que é nosso, a nossa identidade, o que nos distingue, é o mais importante», disse ainda a autarca, enaltecendo esta «marca territorial» que «vai muito além da gastronomia».

«Sem campo, sem agricultura, a cidade não come!»

Em nome da Federação das Confrarias, José Luís Araújo, assumidamente um homem ligado à agricultura, desafiou os presentes a refletirem sobre uma realidade inquestionável: «sem o campo, sem agricultura, sem as pessoas que vivem no campo e trabalham a terra, a cidade não come!», disse. Lembrou que Portugal «disseminou pelo mundo o milho» e é o «segundo país do mundo com mais variedades regionais de milho, cerca de duas mil», assegurou. «Vale a pena perguntar de onde vem o milho para confecionar a broa nas nossas padarias», disse ainda.

Dando nota da mensagem do presidente, Alcides Nóbrega, explicou que as obras da sede da Federação, em Aveiro, «estarão prontas em breve» e deixou um apelo à participação no Dia Nacional da Gastronomia, que se assinala de 23 a 25 deste mês em Espinho.

Maio 4, 2025 . 09:20

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