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Academia de Coimbra volta a “Pedir a Palavra”

Instalação erguida no largo D. Dinis, em frente ao Departamento de Matemática, lembra a ousadia de há 56 anos e alerta para os desafios do presente e do futuro

«Em Coimbra ninguém manda calar ninguém e por isso Alberto Martins pediu a palavra!». A afirmação é do reitor da Universidade de Coimbra, proferida ao final da manhã na cerimónia evocativa do dia 17 de abril e da crise académica de 1969. Amílcar Falcão lembrou que a Academia ergueu a sua voz conta um estado fascista, «onde não havia liberdade de pensamento e de expressão» e fez notar que a democracia e os valores que lhe estão associados representam «uma luta, um trabalho e um desafio constantes, que temos que alimentar e promover».

«Não tenho dúvida de que se a Universidade de Coimbra estivesse nos Estados Unidos, teria tido exatamente o mesmo comportamento que teve Harvard. A nossa autonomia, o nosso pensamento, a nossa liberdade de expressão não se compram, não estão à venda», afirmou o reitor, que pediu aos jovens para interiorizarem estes valores, que são os valores da Academia de Coimbra, na sua formação.

Antes, o presidente da Associação de Antigos Estudantes lembrou a «irreverência» que desde sempre caracterizou a juventude universitária de Coimbra, que pegou em armas contra a ameaça de Castela e durante as Invasões Francesas, e, mais recentemente, «as armas deram lugar à palavra», como aconteceu em 1962 e em 1967. Jorge Castilho recordou as «consequências» do «gesto corajoso» dos estudantes, que pediram a palavra e ergueram a sua voz contra o regime, mas lembrou, sobretudo, as consequência dessa atitude. «Eram jovens com consciência e formação política» que foram mobilizados para a guerra nas antigas colónias e «desenvolveram um eficaz trabalho de politização junto dos oficiais do quadro permanente» das Forças Armadas, o que, em seu entender, foi a semente que desabrochou na revolução do 24 de Abril de 1974.

Jorge Castilho quis, sobretudo, lembrar aqueles que «quase sempre são esquecidos», designadamente «os estudantes que apoiaram os seus dirigentes, que aderiam às greves, participaram em manifestações, enfrentaram as cargas da polícia». Mas também as jovens estudantes que, numa época em que as mulheres tinham poucos ou nenhuns direitos, «tiveram a coragem de se insurgir e lutar pela igualdade». E também os funcionários e professores da Universidade, «que se atreveram a apoiar os estudantes, correndo o risco de ser expulsos». Por últimos, as «famílias», os pais de muitos estudantes, que assistiram às lutas, às prisões, viram os seus filhos partir para a guerra e «ruir os seus sonhos de uma vida melhor».

Carlos Magalhães, presidente da Associação Académica, entende que hoje, mais do que nunca, tendo em conta o «panorama político nacional e internacional», a «palavra» deve ser elevada e tudo se deve fazer para que o esforço da comunidade estudantil na década de 60 e da população em geral, em 1974, para a conquista da liberdade e da democracia «não caia no esquecimento».

Lembrou, ainda, que as primeiras eleições, em 1975, foram «as mais participadas de sempre», com uma «abstenção de 9%». Ao contrário do que aconteceu nas últimas legislativas, onde «quatro em cada 10 portugueses optaram por não expressar a sua voz, a sua palavra sobre o seu futuro, sobre o futuro do país». «Esse não pode ser o caminho, isso não é valorar o poder da palavra e o espírito democrático que hoje queremos garantir no nosso quotidiano», afirmou. «A luta pela palavra, pela igualdade e pela democracia» tem que ser uma «luta de todos os dias», concluiu.

Abril 24, 2025 . 14:31

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