
Praia Fluvial foi ponto de encontro de Coimbra no verão de 1936
Coimbra teve «onde alegrar a vista e refrigerar o corpo» nos dias tórridos do verão de 1936. Construída frente ao Parque da Cidade, com duas esplanadas em ambas as margens do Mondego e pontes de ligação ao areal da zona de banhos, a Praia Fluvial registou nesse ano – o das Festas do VI Centenário da morte da Rainha Santa – um movimento extraordinário e foi «ponto de reunião da fina flor» da cidade.
A ideia de instalar no rio uma praia artificial andava há algum tempo na cabeça de Manuel Braga, administrador da Comissão de Iniciativa e Turismo, que em entrevista ao nosso jornal, a 15 de junho de 1934, confidenciou o desejo de a colocar a funcionar no ano seguinte.
Efetivamente, assistiu-se em 1935 a «um ensaio para tomar, a bem dizer, o pulso ao público, que se estimular essa iniciativa levará a Comissão de Turismo a apresentar uma praia completa já no próximo ano», afirmou o Diário de Coimbra a 19 de junho desse ano, adiantando que estariam para arrancar «os trabalhos de arrumação das areias e escavações, e de construção da represa das águas que hão de alimentar a praia», esperando-se que abrisse ao público antes do fim de julho.
O «formidável êxito» desta experiência motivou a continuidade da iniciativa, mas «em moldes e características absolutamente diferentes» para corrigir o que não tinha corrido bem, em particular «a pequenez do recinto da praia, propriamente dita, que, em alguns dias de maior concorrência, foi acanhado e insuficiente».
Em ano especial de celebração do sexto centenário da morte da padroeira de Coimbra, a Comissão das Festas chamou a si a tarefa de organizar a Praia Fluvial, como complemento ao extenso programa de atividades a levar a efeito em 1936 no Parque da Cidade. O projeto, da autoria do arquiteto Agostinho da Fonseca, previa, em linhas gerais, «duas grandes esplanadas, em cada uma das margens», ligadas à zona de banhos por pontes, e do lado do Parque da Cidade, «num plano inferior, outra esplanada com cabines especiais para os banhistas», aproveitando muitos dos materiais do ano anterior.
O jornal de 11 de junho dava conta do início dos trabalhos de construção, observados por muitas pessoas que se juntavam na avenida marginal do Parque da Cidade, enquanto «dezenas de operários, com o auxílio de duas zorras tiradas por juntas de bois», procediam à remoção de areias no leito do rio.
Às 17h30 de 2 de julho, a Praia Fluvial foi «inaugurada com toda a solenidade», com Ferrand de Almeida, presidente da Câmara, a expressar então o desejo de repetir a iniciativa «nos anos futuros, porque corresponde a uma grande aspiração e a uma grande necessidade do povo de Coimbra»
A canícula (o Instituto Geofísico registou em Coimbra, a 7 de agosto, «68,1 graus ao sol e 39,4 à sombra») empurrava a população para o Mondego, onde a praia fluvial abria a partir das 7h00 para «banhos, diversões e desportos náuticos», refrescando-se ainda nos dois bares concessionados a Filipe Pais Fidalgo, proprietário do Hotel Avenida.
A complementar os banhos, a organização dinamizou ao longo da temporada um vasto programa de animação, com «festivais náuticos», cujas provas de natação atraíram clubes de todo o país, «cortejos de barcos ornamentados e batalhas de flores», serenatas, pirotecnia e muitos outros espetáculos.
No mês de julho foram contabilizadas 25.660 entradas pagas na praia artificial e 4.040 bilhetes de cabines e barracas para banhos. Já em agosto, sob efeito da concorrência da época balnear da Figueira da Foz, houve menos pessoas a pagar bilhete para entrar no recinto (16.730), tendo sido no entanto cobrados 6.698 bilhetes para banhos e 2.113 para toldos.
O jornal informou também, a 30 de agosto, que estavam ancorados na praia fluvial «139 barcos particulares», estando ainda disponíveis, para alugar ao público, 21 embarcações pertencentes à organização.
«Os números dizem da importância da nossa praia fluvial e indicam a manutenção desta como elemento de vida, progresso e valor turístico pela alegria e cor que dá à cidade, e que os turistas sem reservas elogiam e aplaudem», escreveu o Diário de Coimbra.
Provas de natação, com a participação de clubes de vários pontos do país, foram organizadas em 1936 na Praia Fluvial de Coimbra
Era preciso reprimir os saltos perigosos e mortais
O Diário de Coimbra alertou para questões de segurança na Praia Fluvial, onde a 6 de agosto de 1936, «em consequência de um salto infeliz, fraturou a coluna vertebral um cabo do Batalhão de Metralhadoras 2, que foi morrer no Hospital Militar». Já antes, em idênticas circunstâncias, falecera ali por ocasião das Festas da Rainha Santa um estudante da Escola de Regentes Agrícolas.
«Ainda ontem presenciámos um rapazola qualquer atirar-se frequentes vezes à água do gradeamento que fica junto ao arco da ponte», observou o jornal, exigindo medidas.
O Governo Civil viria a ordenar a colocação de «placas indicativas de proibição ou consentimento de mergulhos» e a contratação, pelo concessionário, de um professor de natação, responsável por evitar «os desastres ali ocorridos». Elísio Rodrigues passaria a acumular a orientação da Escola de Natação da Praia Fluvial com a função de nadador-salvador.











