
Não são só os javalis: cresce a caça grossa a provocar prejuízos
Desde que associações e clubes de caça passaram a ter autonomia para autorizar caçadores para a caça do javali e a partir do momento que a lei permite que essa caça possa ser feita todas as noites (e não apenas em noites de luar), o controlo da espécie foi facilitado, no entanto a medida, e acordo com alguns responsáveis, não chega para travar os danos e prejuízos que a caça maior provoca em campos agrícolas e até em zonas mais urbanas. Se há regiões do distrito onde o controlo do que muitos chamam de «praga» tem sido «mais ou menos» conseguido por ação dos caçadores, outras existem onde a espécie continua a crescer e a provocar avultados prejuízos.
E como se não bastasse o aumento exponencial do número de javalis, crescem também as populações de corsos e veados. A caça grossa, admitem alguns responsáveis das associações do setor, é um problema e as medidas governamentais não chegam para o combater.
David Oliveira, do Clube de Caça e Pesca de Oliveira do Hospital, diz que o número de autorizações que o clube passa a caçadores – até há um ano tinha de ser passada pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, o que atrasava os processos – tem vindo a crescer, no entanto isso não se traduz necessariamente no aumento do controle da espécie, até porque o número de caçadores não cresce, pelo contrário, há menos.
«Não é suficiente», afirma, defendendo «medidas mais musculadas» para fazer face a esta «praga». Defende, por exemplo, a «profissionalização», isto é, «caçadores contratados para procederem a estes abates» em determinadas alturas do ano, quando se verifica ser mais necessário controlar a espécie. Por outro lado, a carne do javali e a proibição do seu comércio também dificulta o escoamento da caça. «Mesmo que se abatam muitos javalis não se consegue dar um fim à carne», exemplifica, defendendo uma estratégia para «facilitar o comércio de carne de caça grossa».
O presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, José Francisco Rolo, alerta para o problema no seu concelho, referindo avistamentos de varas de «cinco, seis javalis» que, sem predadores, à procura de alimento e com território para ocupar, se tornaram «mais afoitos e aproximam-se mais dos núcleos urbanos e das quintas». «Destroem o solo todo, comem plantações», lamenta.
Nos concelhos de Miranda do Corvo, Penela e Condeixa-a-Nova, a presença e destruição de culturas por parte dos javalis tem sido um problema recorrente que, nos últimos tempos, tem estado mais controlado, mas não dá para ninguém descansar. «A nova lei facilita o trabalho porque já não temos de pedir autorização ao ICNF», admite Hermínio Santos, presidente do Clube de Caçadores de Miranda do Corvo, que, em jeito de balanço, reconhece os avultados prejuízos para agricultores, mas garante que é preciso fazer uma monitorização contínua. «É uma questão de gestão», diz, garantindo que só passa autorização para a caça ao javali quando há prejuízos que se começam a identificar.
Corsos e veados migram da Lousã para o Açor
O problema, em seu entendimento, tem outra expressão: veados e corsos da Serra da Lousã, cujas populações estão a crescer acentuadamente e se aproximam cada vez mais dos núcleos urbanos. O que era uma questão de javalis, é agora um problema de «caça maior».
«A lei devia ser estendida à caça grossa», defende Hermínio Santos, frisando que uma autorização pelo ICNF pode demorar «uma semana» até ser obtida e nessa altura a destruição já estará consumada. «Se tivéssemos autonomia, passaríamos uma autorização no primeiro ou segundo dia», garante. Mais ainda, frisa que a zona de Lamas, no concelho de Miranda do Corvo, tem sido muito fustigada pelos corsos e veados que buscam nas vinhas «os rebentos de comida tenra». «O javali, ainda assim, consegue-se controlar melhor, tem uma hora certa de entrar à comida, enquanto os veados e corsos não têm», explica.
E porque entre a Serra da Lousã e a Serra do Açor a distância é reduzida, as populações de veados e corsos também estão “migrar”. «Há corsos no Vale do Alva e Aldeia das Dez, cresceu o efetivo a partir da Serra da Lousã», diz José Francisco Rolo, frisando que esta espécie, a par do javali, é um problema. David Oliveira concorda e revela que nas duas montarias já realizadas pelo seu clube «apareceram corsos na área da mancha, o que não era comum».












