Director: Adriano Lucas
Há 80 anos a informar
Sexta-Feira, 3 de Setembro 2010
Escrito por Margarida Alvarinhas   
Dezasseis mil quilómetros
a pé entre Xangai e Portugal
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Masahito Yoshida recusa os meios de transporte e anda apenas pelos seus próprios meios. De carroça, onde transporta os poucos bens, fez ontem uma paragem em Poiares
A 1 de Janeiro de 2009 Masahito Yoshida arrumou a sua (pouca) trouxa e partiu. Partiu rumo a uma aventura que, dentro de poucos dias, o coloca em Lisboa, no fim de uma primeira etapa de uma viagem que teve o seu início no Japão e que o levará, se tudo correr bem, a dar a volta ao mundo. Não são 80 dias, como conta a história de Júlio Verne. São bem mais. Porque Masahito Yoshida, de 29 anos, faz todo o percurso a pé. Carro, autocarro, táxi? «Nada disso», responde.
Ontem, ao princípio da tarde, “aterrou” em S. Miguel de Poiares. Seguia tranquilamente a sua rota, mas alguém o “prendeu” no café da aldeia. A figura chamou a atenção de alguns habitantes locais. Afinal, além dos olhos em bico e do ar turístico e algo desmazelado, Masahito Yoshida carrega consigo a sua pouca bagagem num meio muito pouco convencional, pelo menos para os ocidentais: uma carroça. Alguns homens da aldeia chamaram-no para beber qualquer coisa para “matar” a sede. O nipónico parou e ali ficou, algumas horas, a contar a sua estória, no seu inglês “arranhado”.
Na mesa da esplanada do café tratou de despejar os mapas, muitos mapas, que traz consigo para bem se orientar, para tentar explicar a sua rota. Atravessou, a 1 de Janeiro de 2009, do Japão para a China em ferryboat. Aí iniciou um trajecto que já lhe permitiu percorrer, conta, «15.600 quilómetros entre Xangai e aqui (Vila Nova de Poiares». Pelo meio estão, nada mais nada menos, que 20 países diferentes. «Sempre a pé», afirma, perante o olhar incrédulo dos habitantes, que confraternizavam, com entusiasmo, com o estrangeiro. «Ele é espectacular e deve ser muito culto. Nunca aqui vimos algo semelhante», diziam os homens. «Chegou aqui, conviveu connosco e descansou», explicavam ainda ao Diário de Coimbra. Masahito Yoshida nada percebia, mas não deixava de sorrir, como que a agradecer a simpatia dos poiarenses.

Cabo da Roca de certeza, América talvez
Aliás, simpatia e hospitalidade parecem ser mesmo característica dos portugueses, já que Masahito Yoshida não se cansou de elogiar a forma como tem sido acarinhado no território nacional. «Os portugueses são muito simpáticos, assim como os do Casaquistão, da Croácia e da Turquia. São os melhores», diz. Já dos franceses e italianos a opinião não soa tão positiva. «São bons, mas não simpáticos», afirma.
Na carroça, a típica carroça oriental, Masahito Yoshida leva pouco. O mínimo, até. «Uma tenda, um saco-cama, um fogão pequeno, porque cozinho todos os dias, algumas roupas e um computador», resume. Ao peito a máquina fotográfica onde regista todos os momentos, experiências e vivências em cada um dos 20 países por onde já passou. Não faltam também muitos mapas, um do mundo, já gasto, onde tem a sua rota traçada, e vários, mais pormenorizados, dos países por onde passa. Carrega consigo também muitos jornais, dos vários países, onde já foi notícia por esta sua aventura. Mostra-os um a um. «Bulgária, Casaquistão, Kosovo, Quirguistão, Ucrânia, Montenegro, Croácia, China…», enumera. Agora, Portugal.
Ontem, enquanto descansava de mais uma jornada de caminhada, fazia as previsões das próximas horas. «Hoje ainda vou andar mais ou menos 10 quilómetros». Depois pára e monta a tenda num qualquer local. Aliás, na noite anterior nem sabe onde dormiu. «No monte», responde, enquanto mostra a fotografia tirada no seu último “quarto”.
Masahito Yoshida volta a apontar no mapa a sua rota. O destino é Lisboa, concretamente o cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente Europeu. E lá chegado, que deverá acontecer, pelas suas contas, dentro de alguns dias, fica completa a ligação entre o oriente e o ponto mais a ocidente. A viagem, contudo, não deverá ficar por aqui.
«Vou para a América», afirma, explicando, contudo, que esta não é ainda uma decisão definitiva, uma vez que no Japão está o seu pai «com um cancro», o que vai ter o seu peso na decisão de continuar ou não a volta ao mundo a pé.

Conhecimentos de futebol valem camisola do Benfica
De Portugal Masahito Yoshida pouco conhece, mas para quem gosta de futebol como ele há sempre nomes incontornáveis. «Cristiano Ronaldo?», perguntamos. «Sim, mas prefiro o Figo, o Rui Costa e o Mourinho. Esses sim», apronta-se a responder, dizendo que seguiu a par e passou, na televisão, o Euro2004, que decorreu em Portugal.
A paixão futebolística, que os homens da aldeia desde logo apreciaram, valeu-lhe um prémio. «Como ele se mostrou tão interessado pelos jogadores, nós oferecemos-lhe uma camisola do Benfica», explica um dos locais. Masahito Yoshida agradeceu e aumentou, um pouco mais, a sua bagagem.
Actualizado em ( 2010-07-27 01:19:17 )
 

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