Director: Adriano Lucas
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Sexta-Feira, 3 de Setembro 2010
Escrito por Patrícia Isabel Silva   

Instituição já pensa em instalações no Porto

Casa da Acreditar de Coimbra
para além da luta contra o cancro

Uma pintura do alemão Wolfgang Nocke dá as boas-vindas. Na Casa da Acreditar de
Coimbra, as portas abrem-se hoje, às 15h30,  e está tudo a postos para fazer daquele
espaço o “cantinho” de tantas famílias que travam a luta contra o cancro, mas não só

«É quase como se a minha filha se estivesse a casar». As palavras são de Ana Corrêa Nunes, que há 20 anos teve das mais terríveis notícias que uma mãe pode ouvir. À sua menina, de apenas quatro anos, fora diagnosticado um tumor no rim. A família unida venceu esta luta, mas, ao seu lado, viu inúmeros casos que não tiveram um final feliz.

Na memória, ficaram-lhe pais e mães que acompanhavam os filhos nos tratamentos, longe de casa, e tinham de dormir em bancos dos jardins ou nos carros. E ela, confessadamente, alguém que antes da doença da filha era uma «dondoca» que queria apenas divertir-se em festas, percebeu que a vida é muito mais e fundou a Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro. A ela juntaram-se outras/os voluntárias/os. Muitos viram os filhos sucumbir à doença. Hoje, lutam por amenizar o sofrimento de quem trava a luta pela vida. E a palavra-chave é «dignidade».

Dignidade, que a nova Casa da Acreditar – a terceira no país, depois de Lisboa e Funchal - oferece a quem tem necessidade de nela se hospedar. Construídos os acessos que impediram a abertura há mais tempo, a partir de agora, o tratamento em ambulatório de muitas crianças e jovens, não só com cancro, mas também com outras patologias, torna-se um fardo menos pesado para as famílias de longe dos hospitais.

Logo à entrada, a pintura, criada em exclusivo pelo pintor alemão Wolfgang Nocke para a Casa da Acreditar de Coimbra, dá as boas-vindas a quem entra. E à semelhança deste motivo, a cor reina em toda a casa. O conforto sem luxos ou mordomias é uma marca que se percebe assim que se coloca o pé lá dentro. A modernidade da sala dos adolescentes ou da sala dos pais – com direito também a uma sala de fumo – estão lado a lado com o encanto da sala dos mais pequeninos, com muitos brinquedos para os meninos e meninas.

Depois, há os 20 quartos, alguns com casas-de-banho para deficientes, a sala de jantar, a cozinha com capacidade para várias famílias preparem os cozinhados ao mesmo tempo e a lavandaria. Não faltam vários pátios e pequenos espaços ajardinados, mesmo ali ao lado do Hospital Pediátrico de Coimbra e a poucos metros do Instituto Português de Oncologia e dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

Auto-sustentabilidade
Ontem, a meio da tarde, ultimavam-se pormenores. As voluntárias limpavam, decoravam as paredes e até se preocupavam como ficavam melhores as almofadas nos sofás.

A partir de hoje e 1,5 milhões de euros depois, a Casa da Acreditar está ao serviço de quem precisar dela. Quem a usar, sentirá que está na sua própria casa. Tem de arrumar os quartos, cozinhar, lavar a roupa. E enquanto as crianças brincam, porque não, entre um tratamento e outro, descontrair a ver televisão ou a ler um livro?

E quando chegar a hora de regressar ao lar, cada um sabe que tem de deixar o quarto preparado para quem vier a seguir. Esta casa feita por pais para pais «é auto-sustentável», frisa Ana Corrêa Nunes, já a pensar na próxima aventura: a construção da Casa da Acreditar do Porto.

A verba, para já, não existe. Mas, a experiência diz-lhe que este será mais um desafio para vencer, sem, propositadamente, apoios do Estado. «Nunca nos falta dinheiro, mas também não nos sobra», brinca.

Maria do Patrocínio, da direcção do núcleo de Coimbra da Acreditar, não esconde também a felicidade de ver a casa a funcionar. Para trás, ficaram as dificuldades. Agora é tempo de «ajudar as famílias» que ali chegarem referenciadas pelo serviço social do Hospital Pediátrico, frisa.

O final de tarde aproximava-se e estava tudo praticamente pronto. Ana Corrêa Nunes, a mãe que já foi «dondoca» e que hoje não tem «medo de nada», apesar de já não estar na direcção da associação, nunca deixou de ser voluntária, porque aprendeu a «distinguir o que está nas nossas mãos e o que não está» e que «não há nada mais fantástico do que mudar o mundo». Tenta fazê-lo um bocadinho todos os dias e, desse modo, acredita que quem está a passar por aquilo que ela passou quando tinha 28 anos e quatro filhos pequenos pode sempre encontrar a «dignidade» que muitas das pessoas que se cruzaram no seu caminho pelos corredores do hospitais não tiveram.

Lá atrás, ficou o sofrimento de ver a sua menina de quatro anos - hoje advogada - em coma por duas vezes. Todos juntos, aprenderam a dar sentido apenas ao que merece ter sentido. Tudo, porque valeu e vale sempre a pena Acreditar.

 

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