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Sexta-Feira, 3 de Setembro 2010
Escrito por Andrea Trindade   

Bebés nascidos antes do tempo

Região Centro tem a mais
elevada taxa de prematuros

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Maternidade Bissaya Barreto, onde 10 por cento dos bebés nascem prematuros,
assinala hoje o Dia Internacional de Sensibilização para a Prematuridade

As mãos de um adulto tapam-na completamente. É uma menina e pesa cerca de 700 gramas, é magrinha e pequenina – a fralda é uma versão miniatura – e ocupa menos espaço na incubadora do que todos os tubinhos e sondas que a ajudam a sobreviver. Ao lado, outra pequena lutadora, nascida com 620 gramas, às 25 semanas de gestação. Sete semanas depois, no “ventre” artificial da Unidade de Cuidados Intensivos, pesa já 1.200 gramas. Ver, assim, vidas tão pequeninas e frágeis, a respirar por mais um dia, mais uma semana em que crescem e ficam mais fortes, provoca emoções difíceis de explicar mesmo para quem ali trabalha todos os dias.

O Dia Internacional de Sensibilização para a Prematuridade é hoje assinalado em países de todo o mundo, com o intuito de reflectir sobre as formas de reduzir a taxa de prematuridade e as sequelas nas crianças, bem como de minimizar os problemas das famílias. A Maternidade Bissaya Barreto (MBB), em Coimbra, é uma das instituições a marcar a data. De acordo com a pediatra Fátima Negrão, cerca de 10 por centos dos bebés ali nascidos são prematuros (100 a 120 por ano), mas a grande maioria tem mais do que 34 semanas de gestação.

A fatia dos cinco por cento que nascem com menos de 34 semanas é a que traz mais preocupações e inspira mais cuidados dos profissionais de saúde, «pela sua imaturidade, pelo baixo desenvolvimento dos órgãos, nomeadamente dos órgãos respiratórios, que obriga a apoio ventilatório». Ainda que a idade gestacional seja mais importante do que o peso, estes são também bebés muito pequeninos, com peso normalmente abaixo dos 1.500 gramas. A taxa de mortalidade destes bebés na MBB ronda os 12 por cento, à semelhança do que é conseguido em centros de referência internacionais.

Mas o importante não é só que os bebés sobrevivam. «Preocupa-nos a qualidade de vida que vão ter. Cerca de 20 por cento fica com sequelas, que podem ser doenças crónicas respiratórias, défices sensoriais (surdez, défice de visão, etc.) ou uma paralisia cerebral», explica Fátima Negrão, reparando que «num maior número de crianças que sobrevivem há uma maior taxa de sequelas». Um “pau de dois bicos” que os especialistas têm de ter em consideração na altura de definir «os limites da viabilidade terapêutica». Neste momento, de acordo com a pediatra, «o consenso internacional é de que se deve investir no tratamento de bebés com 24 semanas ou mais».

400 gramas de vida
Ainda assim, graças ao investimento na área da obstetrícia são cada vez mais os bebés prematuros que conseguem ter um desenvolvimento saudável. E isso mesmo prova a história de um bebé que nasceu com apenas 400 gramas na MBB e cuja foto figura, orgulhosamente, no álbum da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN). Serve para mostrar às novas mães (e pais) de prematuros, dando-lhes mais confiança.

Para este tipo de resposta diferenciada, a MBB recebe grávidas de toda a região Centro e, sempre que possível, é feita a transferência “in utero”. «A mãe é a melhor incubadora que existe», sustenta Fátima Negrão. As mães – e também os pais – são preparados para receber o bebé prematuro, com uma visita à Unidade de Cuidados Intensivos, o folhear do álbum de fotos e tudo o que possa minimizar o impacto de não receber o filho nos braços após o nascimento e deste não ser (ainda) o bebé rechonchudo e rosado que imaginaram. 

Taxa elevada
na região Centro

Segundo as estatísticas do Alto Comissariado para a Saúde, a região Centro tem a mais elevada taxa de prematuridade a nível nacional. Uma situação que os especialistas não conseguem explicar. No entanto, são conhecidos os factores que têm contribuído para uma maior taxa de prematuridade em Portugal e em outros países desenvolvidos, como o stress da grávida, infecções, a hipertensão, as gravidezes gemelares (relacionadas também com um aumento da procriação medicamente assistida) e a idade mais avançada das mães. Por outro lado, repara Fátima Negrão, «muitas mulheres com doenças crónicas (diabetes, lúpus, etc.) e outras, que não conseguiam engravidar, podem hoje concretizar esse sonho e levar quase até ao fim a gravidez».

“Tive a sorte de
a conhecer mais cedo”

«As mães têm sempre um grande choque, porque o bebé está inacessível, rodeado por tubos, numa sala em que, por vezes tocam alarmes», explicam Helga Ribeiro e Cecília Parente, que deram ao Diário de Coimbra o testemunho de enfermeiras da UCIN e, simultaneamente, de mães de crianças prematuras. A primeira já com a serenidade que a distância trouxe, já que a filha tem hoje 11 anos e, apesar de ter sido sempre a mais pequenina da creche e do jardim-de-infância, teve um desenvolvimento perfeitamente normal. À filha costuma dizer, meio a brincar, que teve «a sorte de a conhecer mais cedo do que é costume».
Como profissional, Helga Ribeiro nota o desenvolvimento da última década, não só ao nível do equipamento e intervenção clínica, mas sobretudo da humanização dos cuidados, em que o papel dos enfermeiros é fundamental: mostrar uma foto do bebé, caso a mãe não possa levantar-se logo, acompanhá-la na primeira visita, incentivar a ligação ao bebé, a partilha dos cuidados, «levar os pais a apaixonarem-se pelo filho».

Já o bebé da enfermeira Cecília nasceu na MBB e pesava 1.500 gramas. Tem hoje 13 meses, ou 10 meses e meio, se pensarmos que nasceu 10 semanas antes do tempo. «Já gatinha e está a querer dar os primeiros passos», mas é sempre com grande ansiedade que são esperados estes sinais de desenvolvimento.

Com efeito, diz a pediatra Fátima Negrão, os prematuros «são sempre crianças mais frágeis» e a prevenção de doenças ganha mais importância. Mas o seu desenvolvimento não deve ser comparado ao de uma criança da mesma idade, sob pena dos pais ficarem desiludidos com os resultados. Um bebé deve sorrir por volta dos dois meses, mas o bebé da enfermeira Cecília apenas sorriu aos quatro meses e meio, o que é natural, explica a médica.

Sandra Santos, de 29 anos, olha para a sua pequena Beatriz, na incubadora. Agora sossegada, a bebé já tinha ameaçado nascer às 28 semanas, mas lá se aguentou na barriga da mãe até às 32. Em Tondela, está a sua mana e o pai, que aguardam ansiosos pela chegada do novo elemento da família.

Actualizado em ( 2009-11-17 01:32:45 )
 

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