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Sexta-Feira, 3 de Setembro 2010
Escrito por Manuela Ventura   

Nove portugueses

Trabalhadores escravizados
em quintas de Espanha

Uma família da zona da Cova da Beira recrutava trabalhadores em Portugal, com  a promessa de trabalho em Espanha. Todavia, as vítimas viram-se envolvidas num circuito de tráfico e escravidão, sendo obrigadas a viver em condições desumanas. O “pivot” do processo seria o filho do casal, contando com a ajuda do pai e da mãe. Os três foram identificados pela Polícia Judiciária (PJ), que concluiu agora as investigações, remetendo o processo para o Ministério Público da Comarca do Fundão.

Segundo apurámos junto de fonte ligada à investigação, são conhecidas «mais oito situações», envolvendo indivíduos do sexo masculino, com idades entre os 20 e os 40 anos. O primeiro caso ter-se-á verificado em finais de 2005, repetindo-se depois em 2006 e em 2007. «Foi uma investigação morosa», reconhece fonte da PJ da Guarda, esclarecendo que a investigação foi iniciada mediante queixa apresentada por uma das vítimas. Em causa está um homem que foi “contratado” pelos suspeitos, com o objectivo de trabalhar numa quinta, na zona de Castilla y Leon, em Espanha. O homem, que acabou por conseguiu fugir e regressar a Portugal, deu conta das «condições degradantes» em que vivia, sendo «obrigado a trabalhar de sol a sol».

Um quadro de «exploração», refere fonte da PJ da Guarda, que se repetiu nos restantes oito casos, com vítimas recrutadas «em diversos pontos do país», mas com particular destaque para «a zona da Cova da Beira». Os trabalhadores, refere ainda, eram levados pelos angariadores para a quinta, com a promessa de receber um salário, tendo também garantidos alimentação e alojamento.  Todavia, os “contratantes” pouco ou nada cumpriram do acordo firmado, uma vez que os trabalhadores ficaram alojados em «instalações sem um mínimo de condições»,  «num «antigo aviário», a remuneração, quando se verificava era escassa e não correspondia ao acordado, e, na maioria dos casos, tão pouco existia. A alimentação também deixava muito a desejar, para além de que as vítimas eram obrigadas a trabalhar “no duro”.

Para garantir a  “fidelidade” dos trabalhadores e impedir a sua fuga, ter-se-ão registado situações em que estes «eram amarrados durante a noite», bem como casos em que «foram agredidos».

Fragilidades das vítimas
facilitou exploração

Os nove trabalhadores foram, em situações diferentes, canalizados para a mesma quinta, na zona de Castilla y Leon, ou outras próximas e, de acordo com fonte da PJ, «é pouco provável que os proprietários tivessem conhecimento da situação em que estes se encontravam», uma vez que se limitaram a “ajustar” mão de obra com os “angariadores”, particularmente com o filho do casal (actualmente preso por outros crimes) que se encontra radicado em Espanha,  muito embora mantendo uma relação de grande proximidade com a zona da Cova da Beira.

Os três suspeitos, que poderão ser indiciados pelos crimes de sequestro, tráfico de pessoas e escravidão, “aproveitavam-se” de alguma fragilidade das vítimas, uma vez que, segundo apurámos, se trata de pessoas provenientes de um meio socialmente desfavorecido e com algumas dificuldades, o que favoreceu a actuação criminosa dos “angariadores”. Em causa está uma situação que, alerta fonte da PJ da Guarda, «não é inédita», uma vez que têm sido, nos últimos tempos, «vários os relatos vindos a público, através da comunicação social»,  de pessoas que acabaram por ser vítimas de um processo de tráfico, sendo retidas contra a sua vontade, exploradas e tratadas sem o mínimo de dignidade. Um facto que leva a mesma fonte a alertar para os «cuidados redobrados» que se devem ter antes de «embarcar numa situação destas». «Certifiquem-se bem para o que vão e quais são as regras», diz ainda. Isto porque, apesar da coacção e maus tratos a que as vítimas foram posteriormente sujeitas, a verdade é que todas foram «de livre vontade» para Espanha, com o objectivo de ali trabalhar numa quinta. O trabalho, as condições, as contrapartidas e o tratamento é que acabou por se revelar um inesperado inferno.

Na investigação do caso, a PJ da Guarda contou com a colaboração das autoridades espanholas.

Actualizado em ( 2009-10-29 00:47:42 )
 

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