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Miranda do Corvo Confraria da Matança do Porco assume tradição portuguesa
Setenta pessoas foram ontem entronizadas confrades da Real Confraria da Matança do Porco, que realizou o seu primeiro capítulo com uma matança à moda antiga na Quinta da Paiva, concelho de Miranda do Corvo, a que assistiram cerca de 150 elementos de 15 confrarias do país. Trata-se de uma «confraria diferente e à escala nacional», diz Jaime Ramos, presidente da nova instituição, que aposta na preservação de um dos mais tradicionais actos culturais da sociedade portuguesa. «A matança do porco é uma coisa nacional, que não tem a ver só com Miranda do Corvo. É uma tradição muito antiga que vai de Trás-os-Montes ao Algarve», explica o médico, que também dirige a Fundação Assistência para o Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP). Os novos confrades são, para já, pessoas dos concelhos de Miranda do Corvo, Lousã e Coimbra, mas o objectivo é criar uma confraria abrangente. Daí que o próprio estandarte contemple as cores da bandeira nacional – o verde e o vermelho – para além de uma cruz cristã a simbolizar um ritual que apenas os cristãos praticam. Em declarações ao Diário de Coimbra, Jaime Ramos lembrou que «a matança do porco é a festa pagã mais tradicional do país, de Norte a Sul, do interior ao litoral, unindo as famílias e incentivando o convívio com os vizinhos e amigos, embora esteja ligada aos cristãos que, dentro das religiões monoteístas, são os únicos que saboreiam carne de porco». O primeiro capítulo da Real Confraria da Matança do Porco começou com uma missa, na igreja matriz, com participação do Coro da Universidade Sénior da ADFP, seguindo-se um desfile até à Praça José Falcão, e depois a viagem até à Quinta da Paiva, onde decorreu a matança do porco recriada pelo Rancho Folclórico Tecedeiras dos Moinhos. Não faltou o sangue cozido temperado com alho e orelha do animal, depois de chamuscado com carqueja e raspado com telha. A cerimónia de entronização dos confrades decorreu após a matança do porco, um animal de raça bísara ou preto alentejano, criados no parque Biológico da Serra da Lousã (situado no mesmo espaço), sem rações, com alimentação tradicional. A oração de sapiência coube ao jornalista Casimiro Simões, que traçou o quadro histórico de uma matança no contexto rural. O almoço, como não podia deixar de ser, brindou os comensais com um sarrabulho à moda da região e bucho de porco recheado e sopa do campo. A confraria assume também objectivos solidários e, por cada participante no almoço de ontem, cinco euros reverteram para o Centro de Emergência Infantil da Fundação ADFP. Sempre que se realizarem iniciativas, explicou Jaime Ramos, 20 por cento das receitas serão canalizadas para fins sociais.
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