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Sexta-Feira, 3 de Setembro 2010
Escrito por João Luís Campos   
 

Antiga glória da Académica
e ex-vice presidente

Vasco Gervásio
morre aos
65 anos

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Fez 430 partidas com a camisola da Briosa e por onde
passou deixou vincada a sua "seriedade e forte carácter"

Vasco Gervásio faleceu ontem, em Coimbra, deixando a Académica e a cidade indiscutivelmente mais pobres. Gervásio, de 65 anos, destacou-se com a camisola da Briosa ao peito, emblema pelo qual alinhou durante 17 anos, mas o seu carácter íntegro e a sua capacidade de gerar consensos fizeram dele um homem estimado e respeitado não só no mundo do desporto como também na política ou em outras áreas por onde passou, como foi o caso da Segurança Social.

Na edição de hoje, recordamos o texto que sobre ele foi escrito por João Mesquita e João Santana no livro Académica – História do Futebol bem como algumas fotografias que retratam alguns momentos da sua longa e marcante carreira desportiva.

«É uma grande perda para a Académica»,afirmou, ao nosso jornal, ontem à noite, José Eduardo Simões. O presidente da AAC/OAF, que foi colega de Direcção de Gervásio entre 2002 e 2008, referiu-nos que «gostaria que Gervásio, como Moreno e todos os outros grandes Académicos que fazem parte da história e tradição da Académica e que têm um nome que significa exactamente o que era a Académica, estivessem connosco todo o tempo possível».

«Sinto-me extremante emocionado porque era uma pessoa pela qual eu tinha o máximo apreço, um grande respeito. Sentia-o como um irmão mais velho, um pai, uma pessoa que simboliza tudo aquilo que a Académica devia ser pelos bons motivos», acrescentou José Eduardo Simões, sublihando ainda a subida de divisão que protagonizou enquanto treinador num enquadramento tremendamente difícil para a Briosa.

Frederico Valido, presidente do Núcleo de Veteranos da AAC, foi um dos muitos amigos que acompanhou Gervásio nestes últimos tempos. «Perdeu-se uma parte importante do património da AAC», afirmou, recordando os 430 jogos, as duas finais da Taça, o segundo lugar no campeonato. «Foi sempre um exemplo para todos nós. Era a ele, e na altura ao Mário e ao Vítor Campos e ao Belo, entre outros, que a malta nova procurava seguir». Além da carreira desportiva, frisa Valido, «por onde trabalhou deixou vincada a seriedade, competência e forte carácter que o caracterizavam. Como homem, foi um exemplo a seguir por todos».

Gervásio faleceu, ontem à noite, perto das 22 horas, no IPO, vítima de um cancro contra o qual tentou lutar no último ano. À hora de fecho desta edição, apenas foi possível apurar que o corpo seguiria ainda durante o dia de hoje para o Pavilhão Jorge Anjinho logo que liberado do IPO. À família enlutada, o Diário de Coimbra apresenta as mais sentidas condolências.

Dezassete anos é muito tempo

Gervásio é, juntamente com Rui Rodrigues, o grande ausente da equipa do Académico que regressa à 1.a divisão em 1980. No início da época, aliás tal como o moçambicano, decidira pendurar as botas, após 17 anos consecutivos equipado de negro. Não só na altura, como até há muito poucos anos, ninguém tinha efectuado tantos desafios pela Briosa como ele. E ainda hoje é o detentor do recorde de tempo de jogo com a camisola preta e aquele que mais vezes envergou a braçadeira de capitão.

Vão decorridos 44 minutos de jogo entre Académico e Vitória de Guimarães, na tarde de 17 de Junho de 1979. Vasco Manuel Vieira Pereira Gervásio, médio e capitão da equipa coimbrã, abandona o relvado do Estádio Municipal de Coimbra, dando lugar a Gomes, jogador contratado ao Boavista, a meio da temporada. Os colegas abraçam-no. O público irrompe numa revoada de aplausos. Tanto este como aqueles sabem que estão a despedir-se de um dos mais emblemáticos atletas de sempre da Briosa, que ali mesmo, aos 35 anos, põe termo à sua carreira de notável futebolista.

Foi o próprio presidente da direcção do Académico, João Moreno, a confirmá-lo através da instalação sonora do estádio: o desafio que estava prestes a iniciar-se seria o último a sério de Gervásio. Confirmação feita, Moreno leu uma mensagem dos dirigentes do clube: “Foi o estudante-atleta Gervásio um verdadeiro símbolo de atleta, que todos nós e o país se habituaram a admirar e a reconhecer, na plenitude de uma verdadeira e indesmentível dedicação”. No estádio ecoou a primeira grande salva de palmas da tarde.

Os aplausos subiram de tom quando Gervásio entrou no relvado, por entre alas de jogadores do Académico. Abraços e mais abraços. Flores e mais flores. O atleta contém as lágrimas a custo. Tal como acontece quando abandona o campo, pouco antes do termo da primeira parte.

Não é sem uma enorme emoção, claro, que se põe termo a uma longa carreira, iniciada no Benfica e prosseguida em Coimbra, durante 17 anos consecutivos. 17 anos ao longo dos quais Gervásio efectua 430 jogos, o que na altura faz dele o jogador que mais vezes vestira a camisola preta. No total, são mais de 600 horas em campo, tempo jamais atingido por qualquer outro atleta. E é, também, o jogador que mais vezes enverga a braçadeira de capitão de equipa: 284, contra as 207 de Mário Wilson.

Nascido na Malveira, a 5 de Dezembro de 1943, Vasco Gervásio estreia-se na Académica a 30 de Setembro de 1962, num jogo com o Académico de Viseu. Cinco anos depois, ele que já fora internacional júnior, joga pela selecção “B” de Portugal, na Bélgica. É a 22 de Março de 1967 e a seu lado estão mais seis jogadores da Briosa: Maló, Celestino, Rui Rodrigues, Vítor Campos, Ernesto e Serafim.

Alguns deles, serão depois promovidos à equipa principal. Gervásio, que também joga pela selecção militar em seis ocasiões, não. O que muita gente considerará uma enorme injustiça, apenas atribuível à propensão dos seleccionadores para centrarem o seu olhar nos atletas dos três “grandes”. Mas, na Briosa, torna-se o que o seu antigo companheiro de equipa, José Belo, definirá como “uma jóia da coroa”.

“Era um colega com uma personalidade vincada. Verdadeiramente carismático. Um grande senhor, um enorme capitão de equipa, talvez o maior de sempre na Académica”, diz Belo, que envergou, ele próprio, a camisola preta durante 12 anos e continua sendo amigo de Gervásio, com quem partilha “futeboladas” e tertúlias. Mas diz mais: “No campo tinha o dom dos predestinados de transformar em simples o que era difícil e de tornar produtivo o que parecia bola perdida. No quotidiano era cativante, simpático e sociável”.

Quando arruma as botas, Gervásio já está licenciado em Direito. O que muito facilitará o seu ingresso posterior nos quadros da Segurança Social, onde chega a director de serviço, em Coimbra. Mas faz muitas outras coisas ao longo da vida: preside ao Sindicato dos Jogadores, treina os estudantes por duas vezes (numa delas, consegue a subida de divisão), é dirigente da Académica, candidata-se à presidência da junta de freguesia dos Olivais, pelo PS, nas eleições autárquicas de 2001. Curiosamente, perde para o seu antigo treinador Francisco Andrade, cabeça-de-lista do PSD.

Após o jogo de despedida, Rebelo Carvalheira escreve acerca de Gervásio no jornal “A Bola”: “Foi um dos últimos ‘grandes exemplos’ desse exemplo magnífico que tem sido o futebol de Coimbra, dê-se ele pelo nome que se der, chame-se ele Académico ou Académica”. Encontrar quem discorde de tais palavras é mais difícil do que procurar uma agulha num palheiro.


João Santana e João Mesquita
in Académica - História do Futebol



Actualizado em ( 2009-07-04 02:12:42 )
 

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